O argumento de que a ciência moderna é objetiva, e que, portanto, os cristãos devem aceitar suas conclusões relativamente à Evolução, é respondido do ponto de vista da filosofia da ciência. Examina-se o método cientifico para lançar luz sobre a hierarquia de estruturas explicativas que guiam o cientista em suas pesquisas. Analisam-se então a paleo-ciência e a neo-ciência, com o intuito de revelar as diferenças radicais entre elas, com relação a essas estruturas.

Conclui-se que as estruturas da paleo-ciência (das quais o Darwinismo é um destacado exemplo) não podem ser cientificamente comprovadas ou reprovadas.

Para ganhar significado empírico, essas estruturas devem combinar-se com estruturas da neo-ciência, a qual é a única que pode ser cientificamente testada. Na adoção e na conservação de estruturas paleo-científicas, são primordiais as posições filosóficas e religiosas.

Introdução

No debate sobre a Evolução, é freqüentemente levantado um argumento particular contra a posição criacionista, que pode ser expresso da seguinte maneira:

“A ciência, tal qual a conhecemos, teve suas raízes em solo cristão. Os primeiros cientistas reconheciam que a natureza é também um livro de Deus, e que deveriam humildemente estudar a Sua Criação se desejassem aprender os seus segredos.

Desta maneira contornavam as estéreis controvérsias da filosofia (escolástica) e desenvolviam um procedimento objetivo neutro com relação a crenças filosóficas e religiosas.

Mesmo T. H. Huxley escreveu que “a grande verdade que se incorpora na concepção cristã de entrega completa à vontade de Deus” é “sentar-se diante do fato como uma criança, preparar-se para deixar de lado cada noção preconcebida, seguir humildemente por qualquer que seja o abismo pelo qual a natureza conduza, ou então não aprender nada” (1).

Assim, se os atuais herdeiros desta tradição cristã nos dizem que suas pesquisas demonstram ser a evolução um fato, devemos humildemente aceitá-lo. Entretanto, seria melhor devotarmos nossas energias à tarefa mais importante de atacar a filosofia materialista do evolucionismo, que foi construída sobre dados científicos.

Certamente não devemos cair na mesma armadilha que os humanistas, introduzindo considerações filosóficas e religiosas na discussão de teorias biológicas”.

O próprio fato de que tal argumento possa ser seriamente levantado é, no meu entender, uma séria acusação ao nosso sistema educacional. A nossa educação científica é quase que projetada para restringir nossa capacidade crítica. Em particular, a história e a filosofia da ciência são quase completamente desprezadas.

Assim, por exemplo, não há tentativa de pesquisar o quanto eram realmente cristãos em seus pensamentos os primeiros cientistas, ou mesmo de discutir o que exatamente significa na prática o “pensamento cristão”.

O efeito desta deficiência em nossa educação transparece claramente no debate a respeito da evolução.

O método científico

Como a maior parte dos cientistas tem pouca ou nenhuma base filosófica, não é surpreendente que a filosofia da ciência seja geralmente considerada como irrelevante. De fato, ela freqüentemente é pintada como mera especulação de pessoas incompetentes cientificamente! Esse preconceito profundamente arraigado leva muitos cientistas a adotar um ponto de vista simplesmente empírico a respeito do método científico.

Assim, diz-se que o cientista inicia sua tarefa colecionando fatos através da observação e da experimentação. A inspeção desses fatos revelará algumas características de ordem, alguma tendência, permitindo ao cientista a formulação de uma hipótese preliminar. Finalmente, se esta hipótese sobreviver aos testes, o cientista anunciará a descoberta de uma nova teoria ou de uma nova lei da natureza (2).

Se fosse verdadeiro, tal procedimento claramente garantiria a objetividade e neutralidade da ciência. Porém é ele tão mítico quão popular. Por mais restrita que seja a área de investigação, o cientista sempre se depara com tal avalanche de fatos que, se sentasse diante deles como uma criança, seria esmagado. O cientista deve enfrentar o seu trabalho com uma teoria (preliminar) que lhe permitirá selecionar os fatos que são relevantes para o seu problema. Ele tem, por assim dizer, uma rede com uma determinada malha, e o que a sua rede não segurar, não é fato.

Por outro lado, a sua rede é também um sistema de coordenadas, pois ela interpreta os fatos. Sem o contexto que ela provê, ele não saberia o que está observando. De fato, sobre uma simples base empírica não há espaço para um problema cientifico: se conheço aquilo a que estou procurando, não há problema; se não conheço, como posso ter esperança de jamais descobrir algo?! (3)

Estruturas Conceituais

Contudo, até aqui temos somente adiado o problema. Se houver milhares de fatos que possam ser relevantes para um dado problema, há também milhares de teorias que poderiam explicar os milhares de fatos. Assim, se não levarmos em conta, no momento, certos períodos críticos, é claro que um cientista considerará somente um certo tipo de teoria, e terá mesmo de ser um gênio para elaborar uma única teoria. Neste sentido, também o cientista usa tapa-olhos para progredir.

Da mesma maneira em que ele escolhe os fatos que são relevantes para uma teoria, escolhe também as teorias que são especificadas por uma estrutura conceitual – uma estrutura de referência conceitual para teorias (4) (designada doravante pelas iniciais E.C.). Como exemplo de tais E.C. temos o logicismo, o intuicionismo e o formalismo na Matemática, as teorias atômica, termodinâmica e quântica na Física e na Química, e o Weismannismo, o Mendelismo e a Teoria Celular na Biologia.

Em outras palavras, a teoria que expomos em nosso trabalho é uma articulação particular de nossas idéias anteriores (ou idéias de outrem) sobre a natureza das coisas. As E.C., por sua vez, baseiam-se num ponto de vista filosófico da realidade.

Antes, porém, de continuar essa análise imediatamente, desejo passar à questão do “status” científico: como determinamos se uma teoria ou E.C. pertence ou não à Ciência? Isto é, por que critérios podemos fazer distinção entre os conceitos da Química e da Alquimia, ou entre a Astronomia e a Astrologia? Desejo restringir a discussão ao critério da falseabilidade ou falsificabilidade, de Popper (5). Este critério não é completamente adequado, porém traz à luz aspectos das teorias que são extremamente relevantes para uma análise da evolução.

O “status” das teorias

Em termos do critério de Popper, admitimos uma teoria como científica se a sua estrutura lógica for tal que seja possível indicar observações que a refutem. Essa exigência é baseada na assimetria lógica entre verificação e falsificação – não podemos jamais verificar uma teoria por observações (pois outra teoria pode também explicá-las), mas podemos refutá-la pelas observações.

O “status” das Estruturas Conceituais

Aqui, o critério de Popper revela um ponto importante: as E.C. não podem ser refutadas pela observação. Uma lei tal como a lei de Boyle – a pressão e o volume de um gás variam inversamente, mantida constante a temperatura – é refutável porque os conceitos empregados são instanciativos (6), isto é, os conceitos de “pressão”, “volume” e “gás” referem-se a coisas que podemos observar ou experimentar (instâncias). Para a comprovação desta lei derivamos uma simples predição:

(1) Este corpo é um gás.
(2) Portanto este corpo obedecerá à lei de Boyle

Uma lei de estrutura conceitual como o Primeiro Princípio da Termodinâmica (a energia é sempre conservada, isto é, não pode ser nem criada nem destruída) é muito menos tangível. “Energia” é um conceito não instanciativo (7). Esse é um ponto importante, e seria útil tentar explicar essa diferença de outro modo.

Nossa experiência diária é de coisas e fatos concretos. A nossa experiência relativa a um cachorro não é dividida em experiências separadas relativas a sua unicidade matemática, sua massa física, seu crescimento biológico, sua forma estética, etc. Nossa experiência relativa ao cachorro (como de outras coisas mais), é integral e indivisível.

Entretanto, nas Ciências investigamos tais abstrações de primeira ordem como as que foram mencionadas – as várias qualidades ou funções físicas, biológicas, etc. Em seguida, descobrimos que cada um desses tipos de função tem um denominador comum que nos permite derivar abstrações de segunda ordem tais como “número” (abstração matemática), “movimento” (abstração cinética), “energia” (abstração física), “vida” (abstração biológica), que denotam na nossa experiência do universo aquilo que nos habilita a distinguir um certo tipo de qualidade dentre todos os demais (8).

Ora, por causa disso, qualquer estrutura que contenha somente conceitos de segunda ordem, ou não instanciativos, não pode ser refutada pela observação. Para manipular o Primeiro Princípio da Termodinâmica temos de formular teorias específicas envolvendo formas conhecidas (isto é, especificadas) do efeito-energia (mecânica, térmica, etc.). (Observe que esses são conceitos de primeira ordem).
Se qualquer dessas teorias for refutada, então a estrutura conceitual nos dirá como construir nova teoria (possivelmente supondo a existência de nova forma de energia, o que realmente aconteceu no caso da energia nuclear). No curso normal dos acontecimentos, a E.C. propriamente dita nem sequer será questionada.

Refutação das Estruturas Conceituais

A função programática ou regulativa permite-nos formular um critério (popperiano) de “status” científico. Para ser admitida como cientifica, uma E.C. deve ser capaz de interpretação empírica; isto significa que devemos ser capazes de ligar seus termos e conceitos a aplicações práticas dentro do contexto das teorias específicas refutáveis Desta maneira, somos incapazes de aceitar o conceito de Driesch sobre “enteléquia”, porém somos capazes de aceitar a igualmente mística “força gravitacional” de Newton.

Se uma E.C. permite a formulação de teorias testáveis, então ela é passível de ser refutada, e isso através de teorias, as quais são independentemente baseadas (9). Exemplificando, a formulação da equação de onda de Schrödinger (que prediz o espectro de emissão do átomo de Hidrogênio) provê uma teoria que refuta o princípio da estrutura conceitual de que a energia ocorre em todas as quantidades possíveis.

Esse exemplo revela um ponto crucial. Nossa discussão até aqui implicava que a falsificação opera in vacuo, isto é, que ela deve levar à rejeição. Esse é raramente o caso, entretanto. Uma refutação tem o necessário poder para eliminar uma teoria ou E.C. somente quando tiver o suporte de uma alternativa aceitável. Na ausência de tal alternativa, as observações discordantes são simplesmente ignoradas, engavetadas ou deixadas sem explicação. Desta maneira, a equação de onda de Schrödinger foi desenvolvida depois de ter vindo à existência a E.C. do “quantum”, utilizando os conceitos por ela providos (10).

A Origem das Estruturas Conceituais

A adoção de uma E.C. (isto é, a determinação de sua aceitabilidade) envolve uma decisão filosófica, e não meramente uma decisão científica. Teorias alternativas geralmente são comparadas com relação à mesma estrutura conceitual, o que garante um significado estável para os termos empregados. Porém E.C. alternativas podem não ter sequer uma afirmação científica em comum. E.C. que se oponham não podem nunca incorporar os mesmos dados científicos, porque eles estarão completamente permeados pela configuração conceitual diversa (11).

Considerem-se, por exemplo, os diferentes significados atribuídos aos termos “espaço”, “tempo”, “movimento”, “matéria” e “força” na Física Newtoniana e na Einsteiniana. Na discussão entre adeptos de diferentes E.C., cada um deles se vê amarrado fundamentalmente a pontos de vista opostos, porque ninguém permitirá ao oponente as hipóteses extracientíficas necessárias à defesa de sua causa.

Estruturas Conceituais Evolucionistas

A própria “teoria da evolução” não é, de fato, nem uma teoria, nem uma E.C. e sim um dogma filosófico de continuidade. E, dentro desta posição filosófica, três E.C. principais foram objeto de articulação: o Darwinismo, o “Saltacionismo” e o Lamarquismo. Deve ser ressaltado que se trata de E.C. – elas não podem ser provadas nem rejeitadas pela observação.

É, portanto bastante interessante quando os evolucionistas declaram que “rejeitamos a criação especial como explicação adequada porque não podemos imaginar qualquer meio pelo qual ela possa ser submetida a comprovação válida, porque não podemos imaginar qualquer observação que não se enquadre dentro das possibilidades de um Criador possuindo capacidade ilimitada” (12). De fato, precisamente o mesmo é verdade quanto ao Darwinismo: “Um amigo de paradoxos poderia dizer que a principal objeção à teoria da seleção é que ela não pode ser refutada … parece impossível apontar qualquer fenômeno biológico que a refutasse plenamente”(13).

Paleo e Neociência

Seguir-se-ia de nossa análise anterior que, embora não possamos comprovar o Darwinismo por meio de observações, podemos, não obstante, fazê-lo por meio de teorias. Porém isso, de fato, não procede. Aceitamos, por hipótese, tacitamente, que as estruturas científicas são todas da mesma natureza. E esta hipótese é, na realidade, falsa.

Nesse contexto podemos distinguir duas classes particulares de estruturas:
(1) as da neociência, e
(2) as da paleo-ciência.

Nas teorias da neociência (isto é, as que lidam com fenômenos que se passam atualmente), há uma simetria lógica entre a explicação e a predição, isto é, se um evento pode ser explicado dedutivamente por um conjunto de premissas depois de ter ocorrido, então ele poderia também, em princípio, ter sido predito a partir das mesmas premissas, a priori.

Nestes casos, nossa explicação pode ser expressa na forma de uma afirmação de leis gerais e condições iniciais. Por exemplo, podemos predizer a deformação de uma mola se conhecermos primeiramente a lei de Hooke, e em seguida a carga a ser aplicada e a constante da mola (as condições iniciais).

Em outras palavras, a neo-ciência depende de duas coisas:

(a) deve haver uma repetição dos eventos, e
(b) deve haver um sistema de leis que explique a repetição.

Porém, as teorias evolucionistas são “interpretações históricas” (14), isto é, elas estabelecem que os fenômenos (distribuição e diversidade das espécies, homologias, sucessão dos fósseis, etc.) podem ser explicados como provenientes de um processo histórico. Os eventos não podem ser enunciados como resultados de leis gerais como exemplos de uma espécie; são eles fenômenos individuais entre os quais se mantêm relações individuais, e não são recorrentes (15). Como essas teorias agem somente ex post facto, elas não provêem base nem para a predição, nem para a refutação de outra E.C.

Darwinismo

As proposições básicas desta E.C. são:

(1) Variações aleatórias hereditárias estão surgindo constantemente (aleatórias = sem correlação com as necessidades adaptativas do organismo).

(2) As variações relevantes são contínuas, isto é, as diferenças variacionais são pequenas.

(3) A seleção natural é efetiva na utilização das variações para proporcionar a adaptação do organismo ao seu ambiente.

A E.C. é incomprovável porque os conceitos chaves de “variação”, “adaptação”, “seleção” e “ambiente” são de segunda ordem. Por exemplo, “variação” é um análogo biológico de “movimento” (isto é, mudança de caráter) e “ambiente” é um análogo biológico de “espaço” (16). A presença destes conceitos nas E.C., e a posição das E.C. na paleo-ciência, asseguram assim que o Darwinismo é cientificamente irrefutável. Ele não formula quaisquer leis, mas simplesmente provê as categorias sob as quais as variáveis independentes envolvidas no processo evolutivo devem ser arranjadas, e mostra como essas categorias se relacionam conceitualmente uma com a outra.

Porém, para trabalhar dentro desta E.C., o cientista deve dar-lhe significado empírico; isto é, ele deve ser capaz de articular teorias que especifiquem formas concretas dos conceitos empregados. Por exemplo, ele deve ser capaz de especificar que a mutação genética deve ser considerada como forma relevante de variação, ou que locais remanescentes (tais como troncos de árvores enegrecidas) são formas significativas do ambiente. Em outras palavras, ele deve combinar Darwinismo com E.C. de neo-biologia, especialmente com uma E.C. relativa a hereditariedade. Assim, a E.C. original do Darwinismo baseou-se nos seguintes postulados: (17)

(1) O sistema hereditário é caracterizado por “herança misturada” (A isso Darwin acrescentou sua Teoria da Pangênese).

(2) A variação relevante é a variação contínua, flutuante, vista em todos os organismos.

(3) A variação é herdada.

Essa combinação implica que a E.C. é refutável, isto é, refutável no sentido de que seus componentes biológicos estão sujeitos a falsificação. Assim, a E.C. de Darwin foi refutada quando a redescoberta da teoria de Mendel levou à rejeição dos componentes neobiológicos (18).

Na década de 1890 começou a surgir uma E.C. alternativa ao Darwinismo (mutacionismo), entretanto somente em torno de 1930 é que emergiu uma nova E.C. Darwinista (19). Esse Neo-Darwinismo, ou Teoria Sintética da Evolução (20) baseou-se nas E.C. neobiológicas do Mendelismo e Weismannismo:

(1) A hereditariedade é atômica, isto é, o sistema hereditário tem a propriedade de dependência de estados alternativos discretos (alelos) dos fatores hereditários (genes) que podem segregar e recombinar (Mendelismo). Na E.C. esta doutrina é transferida do nível individual ao nível populacional (o conceito de “pool” genético).

(2) A variação relevante é produzida por mutação genética aleatória nas células germinativas.

(3) Alterações no material hereditário são independentes de, ou somente arbitrariamente relacionadas com, alterações no soma (Weismannismo). Na E.C. esta doutrina é também transferida ao nível de população.

Segue-se, de nossa análise, que o Neo-Darwinismo é suscetível de falsificação, no sentido de que o Mendelismo e o Weismannismo podem ser falsificados (21). Certamente isso é verdadeiro, e espero em um próximo artigo indicar um modo pelo qual isso pode ser feito. Contudo deveria ser notado aqui que o desenvolvimento interno do Mendelismo e da combinação Neo-Darwinista resultou em ter-se tornado o Neo-Darwinismo uma metafísica completamente fossilizada (o próprio Darwinismo sempre o foi!).

O Mendelismo explicado

As E.C. da neo-ciência são filosoficamente informadas tanto quanto as da paleo-ciência. As filosofias existentes são primariamente as do mecanicismo, do vitalismo e do organicismo, sendo que o Mendelismo é usualmente apresentado em termos da primeira delas. Contém ele, portanto, os seguintes postulados:

(1) Os organismos, em essência, consistem de genes que têm puramente propriedades físico-químicas.

(2) O corpo de um organismo é um complexo sistema físico-químico cujas partes moleculares são casualmente ligadas à estrutura molecular dos genes.

(3) A hereditariedade consiste, em última análise, do processo físico-químico de duplicação dos genes.

(4) As alterações hereditárias são provenientes de processos físico-químicos de recombinação e mutação de genes.

A predominância deste ponto de vista é indicada pela referência de Hershey (22) ao “dogma não escrito, de acordo com o qual a evolução biológica é meramente a evolução das seqüências dos nucleotídeos”. O Mendelismo é o que é, não por causa dos fatos, mas por causa da filosofia mecanicista na qual repousa.

Para o apoio da continuidade evolutiva, a invariabilidade das espécies é substituída pela invariabilidade dos processos genéticos. Se as espécies são a soma dos genes, então por alterações genéticas as espécies podem ser alteradas, e a continuidade da evolução pode ser explicada. Pelo menos esta tem sido a esperança.

O Mendelismo Clássico

A teoria original de Mendel baseava-se nos postulados de que o gene:

(1) é um corpúsculo do cromossomo.
(2) tem uma função definida.
(3) tem a capacidade de mutação.
(4) é a menor unidade de recombinação.

Isto é, o gene foi definido como uma unidade de função, mutação e recombinação, que mantém correspondência biunívoca com o caráter adulto. Nesta base, o processo evolutivo elementar poderia ser considerado como uma alteração sistemática da freqüência dos genes numa população local.

O Neo-Mendelismo contrastado

Experiências de cruzamentos logo abalaram a estrutura, pois se descobriu, por exemplo, que o mesmo resultado fenotípico poderia ser produzido pelo cruzamento de diferentes linhagens de plantas ou animais. Em termos de E.C., diferentes genes estavam causando o mesmo efeito. Era necessária uma nova teoria. Daí o Neo-Mendelismo modificar os postulados:

(1) Os genes são (ainda considerados como) discretos (23).
(2) As unidades de função, mutação e recombinação são raramente co-extensivas.
(3) As interações dos genes dão origem às características observáveis do organismo (24).

Essa nova teoria pode salvar a E.C., mas enterra o gene sob uma superestrutura epicíclica, se assim for negada a secular persistência de qualquer relacionamento entre os genes e os caracteres (como por Huxley (25), Carter (26), Waddington (27), Mayr (28), etc.). Isto é, se o fenótipo é a expressão de interações não especificáveis, impredizíveis e inconstantes, entre o total dos genes mutáveis (que posteriormente interagem com o ambiente e mesmo com o ambiente interno variável durante o desenvolvimento), então é inteiramente sem sentido dizer que a evolução é “alteração nas freqüências dos genes” (29). A interpretação moderna do gene torna ainda mais espessas as nuvens:

quando o “gene fora de moda” se transforma em uma seqüência para replicação de bases no DNA, ativa para o controle da seqüência protêica do DNA-RNA, os biologistas teóricos têm pouca razão para crer que existem sólidas teorias da evolução e desenvolvimento aguardando serem enriquecidas, em vez de lançadas no caos pela nova compreensão (30).

Neo-Darwinismo e Neo-Mendelismo

O Mendelismo moderno lança pouca luz sobre o Darwinismo, e mesmo a claridade parcial é obnubilada pela importação de hipóteses ad hoc que obscurecem o relacionamento entre o Darwinismo e o Mendelismo. O problema é criado pelo fato de que a imensa maioria das mutações genéticas estudadas em laboratório é admitida como deletéria aos organismos considerados.

Para obviar essa dificuldade, três hipóteses suplementares têm sido aventadas:

(1) a teoria de Fisher dos “genes supressores (modificadores, ou tampões)” (que tornam inócuos os efeitos das mutações deletérias);

(2) a teoria de East de que as mutações relevantes são infinitesimamente pequenas (isto é, não são as normalmente observadas nos estudos experimentais);

(3) a alegação de Dobzhansky de que o fato de uma mutação ser deletéria é relativo ao ambiente particular no qual o organismo se encontra (31).

Sejam ou não verdadeiras essas hipóteses suplementares, todas elas compartilham do mesmo defeito metodológico: elas explicam completamente as dificuldades criadas pela alegação de que a mutação genética provê a variação utilizada na evolução, sem sugerir quaisquer conseqüências inesperadas que possam ser testadas (32). Este triste estado de coisas é bastante típico da moderna paleo-ciência.

A estratégia criacionista

A análise precedente foi necessariamente bastante complexa, porém a conclusão é de fato simples e familiar: na ausência da revelação (isto é, do relato histórico de uma testemunha visual) não podemos cientificamente investigar o passado. Kerkut estava usando a linguagem adequada quando escreveu que “parece por vezes como se muitos de nossos escritores modernos sobre a evolução tivessem tido suas opiniões através de alguma espécie de revelação…” (33). Posições religiosas e filosóficas são decisivas. Não poderia ter existido a “evolução” na ciência sem a anterior aceitação de um evolucionismo na filosofia, e de um humanismo na religião.

A análise não pode, porém, encerrar-se com um tom puramente negativo. O cristão é chamado para dar uma resposta. Não mais devemos nos contentar com ataques esparsos (que os evolucionistas corretamente não levam em conta, por ser irrelevante). Nossa apologética deve ser tanto integral como todo abrangente. Devemos nos lembrar do lado de Quem estamos, e formular um ataque triplo:

(a) Ataque desmascarando a estrutura filosófica e a raiz religiosa do pensamento evolucionista.

(b) Ataque revelando a natureza autodestrutiva de todos esses pensamentos antropocêntricos.

A própria estrutura da paleo-ciência impede uma refutação puramente científica do Darwinismo. Ao invés disso, devemos descer às raízes e proclamar sua podridão ao mundo. Devemos ter a coragem de nossas convicções para sustentar que somente no pensamento Cristocêntrico podemos divisar real significado em qualquer área da vida. Isso é verdadeiro tanto na ciência natural quanto na ciência teológica (34).

(c) Ataque articulando alternativas científicas globais para a evolução, isto é, E.C. e teorias para a cosmogonia, geologia e biologia históricas.

Morris e Whitcomb (35) deram-nos a direção na Geologia, Mulfinger (36) providenciou-nos uma base na Astronomia, e compete a todos nós aceitar o desafio. Nossos esforços na Ciência devem sempre ser preliminares e sujeitos a revisão, porém a Bíblia provê um sólido fundamento, e nosso Senhor é não somente um Salvador, mas também Aquele que criou e mantém todo o Universo.

Referências

(1) Huxley, L. 1900. Life and letters of Thomas Henry Huxley. Macmillan, London, Vol. 1, p. 219.
(2) Este método “indutivo” foi defendido por J. S. Mill e T. H. Huxley, e ainda persiste entre os cientistas como uma crença geral. Ver, por exemplo, Villee. C. A. 1962. Biology. Fourth Edition W. B. Saunders Co., Philadelphia, p. 3.
(3) Este paradoxo foi proposto em Meno de Platão. Ver a discussão feita por Polanyi, M. 1967. The tacit dimension. Routledge and Kegan Paul, London, Capítulo 1.
(4) A partir da obra de Kuhn, T. S. 1962. The structure of scientific revolutions. University of Chicago Press, Chicago, o termo paradigma passou a ser usado com freqüência, porém, esse uso da palavra não é lícito, o que, na minha experiência, tem induzido confusão.
(5) Popper, K. R. 1963. Conjectures and refutations. Routledge and Kegan Paul, London.
(6) Wisdom, J. O. 1952. Foundations of inference in natural science. Methuen & Co., Ltd., London, e 1957. A reply to Dr. Das’s criticisms, British Journal for the Philosophy of Science, 8:325-328.
(7) Em termos da filosofia cristã de Dooyeweerd, esses são conceitos modais, isto é, conceitos analógicos e conceitos referindo-se diretamente aos núcleos modais.
(8) Observe-se que, a despeito da forma do nome, os conceitos de segunda ordem não são substantivos, isto é, “movimento”, “energia” e “vida” não são o que (coisas, substâncias), mas como (como as coisas funcionam).
(9) Wisdom, J. O. 1963. The refutability of “Irrefutable” laws, British Journal for the Philosophy of Science, 13:303-306.
(10) Observe-se aqui a importância do contexto. Na ausência da E.C. do quantum, o espectro de emissão do Hidrogênio não poderia ser visto como um fato relevante (e refutável).
(1l) Feyerabend, P. K, 1963. How to be a good empiricist (in) Philosophy of Science. The Delaware Seminar, Volume 2:pp. 339. Interscience Publishers. Reimpresso em Philosophy of Science. P. H. Nidditch, Editor. Oxford University Press, London, 1968, pp. 12-39.
(12) Wallace, B. 1967, Chromosomes, giant molecules, and evolution. Macmillan, London, p. 5.
(13) Bertalanffy, L. von. 1952. Problems of life. Watts and Co., London, p. 89.
(14) Popper, K. R. 1961. The poverty of historicism. Second Edition. Routledge and Kegan Paul, London, p. 151.
(15) Popper, ibid., Chapter 27.
(16) Ver Dooyeweerd, H. 1954. The analogical concepts. Trad. R. D. Knudsen. A. A. C. S. (Mimeografado).
(17) Darwin, C. R. 1859. On the origin of species. John Murray, London.
(18) Bateson, W. 1894. Materials for the study of variation. Macmillan, New York.
(19) Fisher, R. A. 1930. The genetical theory of natural selection. Clarendon Press, Oxford.
(20) Huxley, J. S, 1942. Evolution, the modern synthesis. George, Allen and Unwin, London.
(2l) Ver Waddington, C. H. (Editor). 1969. Towards a theoretical biology. 2. Sketches. Edinburgh University Press, Edinburgh, pp. 82-128.
(22) Hershey, A. D. 1970. Genes and hereditary characteristics. Nature, 226:697-700.
(23) Na expressão de Espinasse, “little causal thingummies”. Ver Grene, M. 1966. The knower and the known. Faber and Faber, London, p. 235.
(24) Observe-se, novamente, que uma E.C. é sempre suficientemente elástica para ser capaz de acomodar quaisquer observações (“fatos”).
(25) Huxley, J. S., ibid., pp. 121-124.
(26) Carter, G. S. 1957. A hundred years of evolution, Sidgwick and Jackson, London, pp. 129-130.
(27) Waddington, C. H. 1957. The strategy of the genes. Allen and Unwin, London.
(28) Mayr, E. 1963. Animal species and evolution. Harvard University Press, Cambridge, Mass., pp. 158ff, 263ff.
(29) Dobzhansky, Th. 1955. Evolution, genetics and man. John Wiley and Sons, New York, p. 119.
(30) Waddington, C. H. (Editor). 1968, Towards a theoretical biology. 1. Prolegomena. Edinburgh University Press, Edinburgh, P. 104.
(3l) Ver Ho, W. M. 1965. Methodological issues in evolutionary theory. Doctor of Philosophy Thesis, Oxford.
(32) Temos aqui o que Lakatos chama de um “degenerating problem-shift”. Ver Lakatos, I. 1968. Criticism and the methodology of scientific research programmes. Proceedings of the Aristotelian Society, 69:149-186.
(33) Kerkut, G. A. 1960. Implications of evolution. Pergamon Press, Oxford, p. 155.
(34) Ver Rushdoony, R. J. 1958. By what standard? Presbyterian and Reformed Publishing Company, Philadelphia.
(35) Morris, H. M. and Whitcomb, J. C. 1961. The Genesis flood. Presbyterian and Reformed Publishing Company, Philadelphia (Evangelical Press, London. 1969).
(36) Mulfinger, G. 1970. Critique of stellar evolution, Creation Research Society Quarterly, 7(1):7-24.