Introdução

O criacionista de orientação bíblica esposa o catastrofismo. Aceitando as atuais taxas de transformação em sua relação com a parte da história terrestre antiga, convence-se também de que há evidências de catástrofes globais no passado. Sendo um literalista bíblico, mantém que um dilúvio devastador de proporções globais produziu alterações radicais na vida biótica e na crosta da Terra. Semelhantemente, aceita que também ocorreu uma glaciação produzida por fatores catastróficos, alterando drasticamente partes da Terra.

Críticas freqüentes ao uniformismo doutrinário têm sido publicadas nos últimos anos. Têm surgido, artigos em periódicos abalizados, da pena de competentes cientistas, reclamando definições novas e modificações (1). Surgiu uma nova escola de pensamento na Geologia, denominada Neo-catastrofismo. Seus adeptos reconhecem a evidência de taxas de transformação sem precedentes, no passado (2). Pode-se predizer que os adeptos dessa escola aumentarão em número à medida que as pesquisas continuarem a revelar novas evidências do catastrofismo.

Ao apreciar os pontos de vista criacionistas sobre a glaciação continental, infelizmente serão deixadas de lado numerosas opiniões. Somente os tratados seculares a respeito do assunto constituem um respeitável volume. Talvez tenham sido escritos mais artigos sobre a Geologia da Idade do Gelo, do que sobre todas as demais idades geológicas reunidas. O autor desta revisão confia em que os criacionistas, portanto, assumirão uma posição simpática quanto à tarefa assumida. Crê, ainda, que os leitores anotarão quaisquer artigos não levados em conta, e os farão conhecidos do autor e do editor, por correspondência.

Uma das maiores diferenças entre os criacionistas a os cientistas seculares consiste na interpretação da extensão, época e duração da Idade do Gelo. Muitos criacionistas aceitam somente uma glaciação principal, em vez do ponto do vista clássico de quatro glaciações. Associam, assim, a época da glaciação continental como concomitante ou subseqüente à época do dilúvio global.

Os próprios criacionistas diferem entre si quanto às causas, extensão e efeito das calotas de gelo. Alguns aderem à teoria de que o gelo foi introduzido ou por um derramamento de origem astral, ou pelo rompimento de uma camada de gelo que teria envolvido a Terra na alta atmosfera. Outros, ainda, aceitam que a glaciação foi produzida pelo frio resultante do colapso de uma camada de vapor d’água que teria envolvido a Terra. Outros criacionistas crêem que as causas podem ser encontradas no estudo dos fenômenos climatológicos e geológicos. Os glaciologistas já apresentaram cerca de sessenta explicações para o aparecimento das calotas de gelo. Nenhuma dessas explicações até hoje recebeu aceitação geral. É opinião do revisor que os criacionistas deveriam, portanto, ser cautelosos e não dogmáticos com respeito ao assunto. Nem as Escrituras, nem a pesquisa científica têm revelado a causa exata desse notável período.

Muitos criacionistas crêem que a glaciação continental seguiu-se ao dilúvio. Whitcomb e Morris, Harold Armstrong (3) e o revisor, estão entre os que assim crêem. Donald Patten é uma exceção. Escreve ele: “Propõe?se aqui que a causa ou causas da Época do Gelo não se seguiram ao Dilúvio. Constituíram ambas uma única catástrofe” (4). Aqueles que esposam a teoria de una camada de gelo circundando a Terra, crêem também que o seu rompimento ocorreu simultaneamente com o Dilúvio.

a. História da glaciologia moderna

Em resultado do seu estudo dos movimentos das geleiras nos Alpes, o cientista suíço Luís Agassiz escreveu dois livros em que introduziu um surpreendente conceito novo no pensamento geológico então corrente. Os livros intitulavam-se “Estudos das Geleiras” e “O Sistema Glacial”. Nessas obras, publicadas em meados do século XIX, Agassiz propunha a teoria das calotas de gelo continentais, no qual supunha que “grandes camadas de gelo, semelhantes às que hoje existem na Groenlândia, outrora cobriam todos os países em que se acham leitos estratificados de pedregulhos” (5).

O próprio Agassiz tinha sido anteriormente partidário da teoria de Lyell sobre o transporte mediante “icebergs” e placas de gelo. Quando Agassiz visitou as Ilhas Britânicas em 1840, em conjunto com William Buckland “estendeu a doutrina glacial até a Escócia, Norte da Inglaterra e Irlanda” (6).

As calotas de gelo postuladas por Agassiz eram realmente vastas. Escrevendo sobre a Europa, disse ele: “Temos de lidar com camadas de gelo de mil e quinhentos a mil e oitocentos metros de espessura, cobrindo todo o continente”(7). Escrevendo a respeito do gelo, disse que “se estendia pelo menos desde o Pólo Norte até os Mares Mediterrâneo e Cáspio” (8). Em outro lugar afirmou “estendia-se além da orla litorânea do Mediterrâneo e do Oceano Atlântico, cobrindo mesmo completamente a América do Norte e a Rússia Asiática” (9). Cinqüenta anos depois, Dawson apreciava esse conceito: “Pode-se dizer que a teoria das geleiras de Agassiz e outros, cresceu até se espalhar sobre toda a Terra, como próprias geleiras imaginárias” (10).

A glaciação múltipla não recebeu aceitação geral até aproximadamente o início do século XX. Penck e Bruckner, após estudar as formas e sedimentos da glaciação nos Alpes Bávaros, escreveram uma obra em três volumes intitulada “Os Alpes na Idade do Gelo”. Nesse trabalho, popularizaram o conceito de quatro fases de glaciação, qualificando-as como Gunz, Mindel, Riss e Wurm. O trabalho tornou-se clássico para os adeptos da poliglaciologia.

A monoglaciologia foi o ponto de vista geralmente mantido pelos geólogos por cerca de meio século. Um dos seus mais hábeis defensores foi J. W. Dawson, do Canadá. Clark escreveu o seguinte elogio para esse grande cientista: “Pelo preceito e pela palavra escrita e falada, fez ele para o progresso da Geologia e da educação no Canadá, durante aquele período, mais do que qualquer outra pessoa” (11). Flint ressaltou o ponto de vista de Dawson em oposição à poliglaciologia: “A última oposição científica a ela na América do Norte extinguiu-se em 1899 com J. W. Dawson” (12).

A oposição científica à poliglaciologia, contudo, não morreu com Dawson. O renomado, embora controvertido, antropólogo norte-americano Ales Hrdlicka recusou-se a aceitar as indicações geológicas de uma sucessão de quatro glaciações na Europa. Alimen escreveu acerca de paleontologistas franceses “que admitem somente uma glaciação no Quaternário, a saber, a designada per Wurm” (13). O extinto Richard Lougee argumentava: “A redução da idade do gelo à ‘unidade’ encurta a história geológica e anula o significado dos qualificativos referentes a Nebraska, Kansas, Illinois, Wisconsin, e dos diversos Interglaciais”. Escreveu Lougee: “Sedimentos anteriormente atribuídos a quatro ou cinco glaciações distintas, do Pleistoceno, são sedimentos de uma única glaciação” (14).A monoglaciologia ainda persiste hoje. O próprio número de glaciações não encontra acordo entre os que esposam a poliglaciologia.

b. A extensão da glaciação continental

Aceita-se hoje, geralmente, a evidência de calotas de gelo no hemisfério norte. Cornwall resumiu: “Embora haja ainda inúmeros campos de desacordo e controvérsia em questões de Geologia do Pleistoceno, está hoje plenamente comprovada a origem glacial do material rochoso nas latitudes médias” (15). Há, entretanto, ampla gama de opiniões quanto à extensão da glaciação. Agassiz bem teria profetizado a respeito de outros ao escrever “Estou certamente longe de ter dito a última palavra sobre geleiras” (16).

Aceita-se comumente que cerca de 30% da superfície da Terra estava inicialmente coberta de gelo, na maior parte sobre a América do Norte. Afirma Woodbury: “Na Europa, a extensão do gelo não correspondia a mais de um terço da sua extensão no Canadá e nos Estados Unidos” (17). Diz Patten: “A massa de gelo estendia-se do Alasca oriental até a Europa Central, e das franjas da Sibéria até o centro dos Estados Unidos” (18). Um livro escolar secundário especifica: “Na Europa as camadas de gelo cobriam a maior parte da Escandinávia, as Ilhas Britânicas, a Dinamarca, a Bélgica, o norte da França e os países bálticos, estendendo-se pela Alemanha e Rússia” (19).

Todavia, devem os criacionistas alertar-se contra afirmações qualificativas. Escreveu Loy: “No Ártico, as últimas grandes camadas da Idade do Gelo jamais cobriram o Pólo Norte, mas espalharam-se a partir de centros localizados centenas de quilômetros ao sul” (20). Escreve Lindroth: “O Alasca, foi pouco afetado pelo gelo, a sua maior parte tendo permanecido isenta de gelo através de todo o período Pleistoceno (Flint, 1952) como também a parte oposta da Sibéria oriental” (21). Farb inclui o Canadá ocidental, juntamente com a maior parte do Alasca e grande parte da Sibéria, como tendo permanecido isento do gelo durante a última parte do último avanço glacial (22). Ewing e Donn postulam que: “Os fatos sobre o homem primitivo nas Américas apóiam a idéia de um Ártico isento de gelo durante o período de Wisconsin, e portanto durante os estágios glaciais anteriores” (23).

A extensão da glaciação na Europa também é controvertida. West escreve nesse sentido: “A evidência sugere a sobrevivência da vegetação aberta, com a flora constituída por muitas plantas da montanha e do norte, no sul da Inglaterra durante as glaciações” (24). Afirma Hibben: “Existiu uma ponte terrestre entre a Grã-Bretanha e o continente europeu, durante todo o período Pleistoceno” (25).

Voltando ao continente europeu, afirma Alimen: “A França escapou da glaciação continental do Pleistoceno”(26). Flint especifica: “Parte alguma da Bélgica sofreu glaciação em época alguma” (27). Rankama escreveu sobre “a sedimentação marinha contínua no oeste dos Países Baixos” (28). Alguns estudiosos das glaciações colocaram a extremidade sul da glaciação máxima em Londres e Leipzig. Poder-se-ia demonstrar que a glaciação nos Alpes Suíços foi mais extensiva e não somente da natureza local? Uma coisa é hoje bastante certa, isto é, as calotas de gelo jamais se aproximaram da extensão postulada por Agassiz e outros de sua época. Os criacionistas devem permanecer alerta quanto à aceitação imediata de quaisquer estimativas referentes à glaciação.

c. A natureza catastrófica da glaciação continental

Numerosos criacionistas estão convictos de que a glaciação ocorreu repentinamente, devido a agentes catastróficos. Agassiz havia defendido esse ponto de vista ao escrever: “As terras da Europa, anteriormente cobertas de vegetação tropical, habitadas por manadas de grandes elefantes, enormes hipopótamos, e gigantescos carnívoros, subitamente foram soterradas por uma vasta extensão de gelo que cobriu planícies, lagos, mares e planaltos” (29). Rejeitando os conceitos uniformistas, disse ainda: “Portanto, todas as hipóteses de um resfriamento gradual da Terra, ou de uma lenta variação quer da inclinação quer da posição do eixo terrestre, não são válidas” (30).

Dawson sustentava que a rapidez do derretimento do gelo, após a glaciação, foi responsável pela vasta e extensa destruição da vida. Escreveu ele: “aquele dilúvio pós-glacial, que deve ter varrido a maior parte da humanidade, bem como muitas espécies de grandes animais, deixou somente poucos sobreviventes para repovoar o mundo” (31). Talvez as extensas jazidas de fósseis no solo das plataformas continentais sejam argumento a favor da rapidez da elevação das águas devido ao rápido derretimento do gelo.

Pode-se notar que alguns poucos uniformistas estão usando, eles próprios, o qualificativo catastrófico, ou seu equivalente, para a glaciação. Escreve Smith: “O advento de um período glacial deve, portanto, ter constituído um acontecimento cataclísmico” (32). Eiseley escreve sobre a época do gelo: “Foi uma enorme extravagância dos elementos, atribuída pelas autoridades a quando muito um por cento da história da Terra, e classificada como ‘geo-catastrófica”(33). Observa Asimov: “Apesar de tudo, houve catástrofes” (34).

d. A vasta extinção dos animais do norte

A dramática extinção de incontáveis milhões de animais nas camadas de turfa congelada do Alasca e da Sibéria, tem intrigado e pedido explicações de cientistas desde Agassiz até nossos dias. Hapgood escreve a respeito da sua quantidade: “Sabemos, todavia, que juntamente com os milhões de mamutes, as planícies do norte da Sibéria sustentavam vastas quantidades de rinocerontes, antílopes, cavalos, bisões e outras criaturas herbívoras, ao mesmo tempo em que grande variedade de carnívoros predadores, inclusive o tigre de dente de sabre” (35). Apelando a uma explicação neocatastrófica, Hapgood postula a seguinte causa para a sua extinção:

“Em conclusão, parece-me que toda a massa de evidência relativa aos restos de animais e plantas na tundra siberiana, interpretada à luz da evidência encontrada na América do Norte, confirma, suficientemente a conclusão de que houve um deslocamento da Sibéria para o sul, coincidindo com o deslocamento da América do Norte também para o sul, no fim da última Idade do Gelo norte-americana” (36).

Patten (criacionista) defende como causa da extinção um fenomenal derramamento de gelo de origem astral. Afirma ele: “um grande derramamento de gelo de origem astral, possivelmente cerca de quarenta e oito milhões de quilômetros cúbicos, fluindo sobre os pólos magnéticos, simultaneamente com o Dilúvio, envolvendo gelo em temperaturas próximas de zero” (37). Observa então: “As carcaças dos mamutes congelaram-se rapidamente, talvez em temperaturas abaixo de -100 ºC” (38).

O principal problema para a aceitação do ponto de vista de Patten e de outros semelhantes, é que as áreas das extinções em massa no norte nunca sofreram glaciação. Os restos fósseis são encontrados em turfa congelada ou em permafrost. Permafrost é o nome para os solos e subsolos profundamente congelados. Nesse sentido escreve Sanderson: “A coisa realmente enigmática é o fato do que esse permafrost, no Alasca e na Sibéria, contém enormes quantidades de ossos e carne animal, vegetação semidecomposta, madeira e outros restos de seres vivos que, em algumas áreas constituem, em conjunto, apreciável percentagem do todo” (39). O Permafrost em sua composição é muito diferente tanto do gelo terrestre quanto do encontrado no mar.

A sugestão da migração dos pólos feita por Hapgood traz dificuldades. Tais extinções teriam de ocorrer repentina e dramaticamente. Teria de haver um recobrimento rápido juntamente com repentino congelamento profundo. O deslocamento dos pólos, ocorrendo ao longo de vários séculos, dificilmente teria sido causa suficiente.

Há uma solução possível para a intrigante situação? Recorda-se de um excelente comentário feito por Morris. Afirmou ele: “De fato, parece não haver meio de explicar a maior parte das grandes jazidas de fósseis do mundo, especialmente dos fósseis vertebrados, a não ser em termos de sepultamento extremamente rápido e litificação, da maneira descrita pelo dilúvio bíblico, juntamente com a atividade vulcânica e tectônica paralela, e seus induzidos fenômenos glaciológicos subseqüentes” (40). A maior causa da extinção foi o Dilúvio relatado em Gênesis. Aquele livro, capítulo 7, verso 21, assim registra: “Pereceu toda carne, tanto de ave como de animais domésticos e animais selváticos, de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem”.

Mas, se toda vida tivesse perecido por afogamento, como explicar o congelamento profundo dos mamutes e outros animais no Alasca e na Sibéria? Daly oferece a seguinte explicação: “Tão logo se rompeu a camada protetora do vapor d’água, perdeu-se calor por irradiação para o espaço e os mamutes congelaram-se ‘repentinamente… como em uma simples noite de inverno’ no dizer de Dana” (41). Em outro local ele afirma: “Que a queda de temperatura ocorreu, e a idade do gelo começou, exatamente ao tempo do dilúvio, quando a camada protetora do vapor d’água se rompeu, prova-se pela existência dos mamutes congelados” (42). Daly então postula a extinção em massa pelo congelamento simultâneo com o Dilúvio.

O ponto de vista de Patten é que houve um derramamento de gelo de origem astral devido à aproximação de outro planeta suficientemente perto da Terra para esvaziar a sua carga. Supõe ele que “os mamutes foram subitamente enjaulados no gelo”. Sustenta também que a sua condição de congelamento “apóia a proposição de que o Dilúvio e a Época do Gelo foram catástrofes globais simultâneas (ou melhor, fases diferentes da mesma catástrofe)” (43).

Há alguma alternativa para o ponto de vista de Daly e Patten quanto à morte dos mamutes pelas causas por eles postuladas?

Em primeiro lugar, seria muito errado pensar que os grandes animais são usualmente achados intactos e em condições de boa preservação. Freqüentemente os restos estão dilacerados e misturados com madeira e detritos vegetais. Ao serem achados expostos, os restos apresentam-se quase sempre em condição de semidecomposição. Ainda mais, metade dos restos ocorrem na Sibéria, onde o permafrost encontra-se “semeado de restos de plantas e animais somando incontáveis milhões de toneladas” (44).

O ponto mais frio da Terra hoje está na Sibéria. A temperatura cai a menos de 70 ºC abaixo de zero. As temperaturas de verão na mesma área podem atingir até 15 ºC acima de zero. Podem então resultar diferenças de temperatura de 85 ºC entre verão e inverno. Além dessa queda de temperatura, há o fator de congelamento resultante da ação do vento. O autor de um artigo recente sobre o Alasca observa.que: “os ventos de oitenta quilômetros por hora, soprando sobre os duzentos mil quilômetros quadrados de encostas, a 30 ºC abaixo de zero criariam um fator de congelamento igual a 75 ºC abaixo de zero. Nesse ambiente sem proteção, a carne congela em menos de trinta segundos” (45). Um fator de congelamento de 100 ºC abaixo de zero não é improvável ainda hoje, tanto no Alasca, como na Sibéria.

Após o Dilúvio, informa-nos o livro de Gênesis, capítulo 8, verso 1, que “Deus fez soprar um vento sobre a Terra, e baixaram as águas”. Entende-se que a natureza e a duração deste vento tenham sido fator determinante para causar o abaixamento das águas do dilúvio. Seria possível que este vento fosse acompanhado de uma queda de temperatura em locais como o Alasca e a Sibéria?

O autor pediria indulgência ao sugerir a seguinte causa para as vastas jazidas dos restos congelados naquelas regiões boreais. O próprio Dilúvio foi acompanhado de escoamentos de lama que tanto afogaram como soterraram os mamutes e outros animais no norte. Isso logo foi seguido por uma extrema queda da temperatura a fortes ventos. Os ventos causaram a abaixamento das águas e em seguida o rápido congelamento profundo da lama com as vastas jazidas de restos dos animais. O congelamento foi resultante do efeito produzido pelos ventos. A conseqüência foi a formação de uma vasta área de permafrost que em alguns locais atingiu a profundidade de cerca de 1.500 metros. O permafrost tornou-se o grande cemitério de incontáveis milhões de animais afogados.

e. A teoria dos detritos levados pelo gelo

Sir Charles Lyell contava-se entre os primeiros cientistas que aceitaram a teoria da placa de gelo em vez do movimento glacial para explicar o transporte dos sedimentos rochosos encontrados na Inglaterra e nas planícies da Alemanha. Agassiz observou a respeito do ponto de vista de Lyell: “Ele supõe que o transporte de pedregulhos angulosos se tivesse dado sobre placas de gelo levadas pelas correntes marinhas, da mesma maneira pela qual o gelo ártico transporta pedras que finalmente são depositadas ao longo das praias do norte da Europa” (46). Dawson comentou posteriormente: “Os seus pontos de vista, quanto à ação combinada do gelo terrestre em geleiras, de fragmentos flutuantes de geleiras ou ‘icebergs’ e de gelo do campo, são, ou deviam ser conhecidos; devo dizer, porém, que eles não foram expostos claramente” (47).

Agassiz, confessou falta de familiaridade com os efeitos do gelo flutuante: “Até agora não tive também oportunidade do examinar a influência do gelo flutuante nas linhas litorâneas dos grandes corpos d’água; entretanto, duvido que a sua influência fosse distinta da influência da água normal” (48). Porém Flint, um especialista glacial de nossos dias, escreve: “Nem todas as estrias em rochas são de origem glacial; outros agentes além das geleiras produzem estrias. Um agente glacial comum nas altas latitudes é o gelo flutuante nos rios, nos lagos e no mar” (49).

Daly assinala: “A idade do gelo foi uma idade de ‘icebergs’. O nível dos oceanos não tinha ainda descido, e eles cobriam os continentes” (50).

Há evidência acumulada de ampla interpretação falha a respeito da ação efetuada pelo movimento das geleiras. Rochas com dimensões de toneladas foram deixadas no Missouri por meio de “icebergs” flutuantes. Afirma Lougee: “Pedras e seixos erráticos trazidos por ‘icebergs’ ficaram enterrados na topografia subterrânea do norte do Kentucky, no sudoeste do Missouri e no leste de Iowa” (51). Esses gelos flutuantes ocasionariam sem dúvida estrias como mencionado por Flint.

Gansser assinala, a partir de observações pessoais, que “O autor tem visto muitos fanglomerados no deserto, os quais, exceto pela ausência dos pedregulhos claramente estriados, dificilmente poderiam distinguir-se de camadas de pedregulhos provenientes de geleiras, e certos escoamentos de lama podem conter seixos estriados não relacionados com a glaciação” (52). Fairbridge também assinalou: “O reexame cuidadoso da evidência encontrada nos anos recentes, portanto, rejeitou muitas dessas idades do gelo; formações anteriormente identificadas como morenas glaciais, foram reinterpretadas como jazidas depositadas por escoamentos de lama, escorregamentos submarinos, e correntes túrbidas” (53).

f. Duração da Idade do Gelo

Os estudiosos da história da Idade do Gelo sabem da variação e do desacordo generalizado existentes relativamente à duração da idade glacial. Cornwall fala por um grupo ao dizer: “O período Pleistoceno é agora reconhecido como tendo durado cerca de dois a três milhões de anos, incluindo uma parte mais antiga conhecida como a Villafranchiana” (54). Tal ponto de vista não é de maneira alguma uniforme, e não tem aceitação geral. Gilluly destaca: “Um dos itens mais controvertidos em geocronologia é o da duração da época Pleistocênica” (55).

Haldane representa outro grupo bastante proeminente ao afirmar: “De fato, trabalhos recentes sugerem que o período Pleistoceno durou somente cerca de 300.000 anos” (56). O leitor deveria notar que essa estimativa é meramente um décimo da estimativa de Cornwall. Springstead cita estimativas feitas por alguns poucos geólogos com a duração de somente 10.000, 30.000, e 100 a 150 mil anos (57).

O principal método de datação da época do gelo tem-se relacionado com a postulação de glaciações múltiplas e extensos intervalos. Krober observou que o principal método de datação do Pleistoceno é função das idades glaciais associadas (58). Springstead ressaltou, entretanto, que o ponto de vista poliglacial é defeituoso devido à falta de evidência de campo (59).

Somente três cadeias de montanhas nos Estados Unidos fornecem evidência de mais de uma glaciação. Evidência de uma glaciação, somente, tem sido encontrada em áreas montanhosas tais como os Apeninos, Sierra Nevada, Montes Atlas, Anatólia e Bálcãs. Conhece-se um só estágio glacial para a Austrália, a Tasmânia e partes da Turquia oriental e ao lado do mar Negro. Finalmente, a poliglaciação não pode ser demonstrada em muitas áreas de terra glaciada.

Deve ser mantido em mente que todas as geleiras suíças são “geleiras de vales”, em contraste com as extensas geleiras continentais, mais estáveis, encontradas na Groenlândia e na Antártida. A fórmula de Penck?Bruccner, que usa glaciações na Suíça para postular glaciações em outras partes, é eivada de erro. Kurten observou: “Muitos autores sugerem que a nomenclatura alpina não devesse ser usada exceto nos Alpes” (60).

g. O término da Idade do Gelo

Produziu-se um abalo notável nas estimativas da duração da Idade do Gelo quando se descobriu que o seu término era muito mais recente do que se tinha estimado anteriormente. Muitos autores sugerem que o seu término tenha-se dado dentro dos últimos dez mil anos.

De acordo com Bryan a Gruhn “alguns geólogos afirmam que o período Wisconsin terminou quando se derreteu o último Laurenciano, há cerca de 6 a 5 mil anos; isso se baseava no fato de que o nível do mar aparentemente parou de subir, abruptamente, em torno daquela época (Frye e Willman 1960)” (61). Hapgood, apesar de poliglacialista, escreve a respeito: “A última delas, que terminou há cerca de somente 8.000 anos” (62). Watson e Sisson escrevem: “O principal levantamento eustático do nível do oceano, que terminou há cerca de 5.500 anos (Godwin e Willis, 1961, 1962) restaurou o Mar do Norte a aproximadamente seu estágio atual. …” (63). Embora tais estimativas não possam ser nada mais do que relativas, elas ressaltam o recente derretimento do gelo no hemisfério norte. Não estão muito distantes de algumas estimativas feitas para a época do Dilúvio.

Pelo estudo efetuado sobre os mapas dos antigos reis navegadores, e através das datas obtidas com isótopos pelo Dr. W. D. Urry, Hapgood defende um período de clima quente na Antártida, somente há pouco mais de 6.000 anos (64). Artefatos descobertos por arqueólogos no litoral congelado do Ártico argumentam a favor de um gelo ártico recente. Ambos estes fatores sugerem glaciação rápida e recente naquelas áreas. Observando a rapidez da extinção glacial recente no Alasca, Sanderson comenta significativamente: “Talvez bastassem quarenta dias e quarenta noites de neve ou chuva para o início de uma ‘idade glacial’ ou de um dilúvio” (65).

Conclusão

Em conclusão, este autor manteria o ponto de vista defendido pelos criacionistas que estão convencidos de que a glaciação continental seguiu-se ao Dilúvio bíblico. Ao assim fazer, estaria aderindo à convicção de Dawson de que as glaciações foram menores do que popularmente têm sido concebidas (66).

Apesar deste ponto de vista reduzir dramaticamente a duração da Idade do Gelo, e também postular a sua ocorrência dentro do período histórico, o autor nada vê de incongruente em manter tal conceito. Ocorrências catastróficas podem ser demonstradas razoavelmente para diversos acontecimentos significativos. Somente uma catástrofe, cobrindo cerca da quinta parte da terra seca do mundo, poderia explicar as enormes extinções de animais no Alasca a na Sibéria. É digno de registro ter sido recente tal extinção. A rapidez da glaciação no Ártico e na Antártida, dentro dos últimos dez mil anos, provê base também para a postulação de processos glaciais catastróficos em outros locais.

Ao ser cuidadosamente estudado o extensivo trabalho de campo que visa apoiar a poliglaciologia, torna-se mais forte o apoio à monoglaciologia. Verifica-se também que a duração da Idade do Gelo é bastante mais curta. O Dilúvio bíblico supre a água necessária para a conseqüente glaciação continental. O dilúvio, e não a glaciação, foi o principal fator das extinções da Idade do Gelo.

As inundações tiveram um lugar muito mais proeminente, mesmo durante a Idade do Gelo, do que os estudiosos do assunto imaginavam. De fato, seria muito mais apropriado designar todo o período de tempo como Idade Pluvial em vez de Idade Glacial. As glaciações foram muito mais localizadas do que geralmente se tem postulado.

Referências

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(16) Agassiz, Op. cit., p. LXXI.
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(18) Patten, Op. cit., p. 114.
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(26) Alimen, Marie Henrietta. 1967. Op. cit., p. 205.
(27) Flint, Richard F. Op. cit., p. 406.
(28) deJong, Jan D. 1967. The geologic systems. The Quaternary 2, Ranksma, Kalervo, John Wiley, N. Y., p. 317.
(29) Agassiz, Op. cit., p. 169.
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(34) Asimov, Isaac. 1964. A short history of biology. Natural History Press, Doubleday, p. 67.
(35) Hapgood, Charles H. 1970. The path of the pole. Chilton Book Co., Philadelphia & N. Y. & London. (Edição revista de Earth’s Shifting Crust, 1958), p. 255.
(36) Ibid., p. 279.
(37) Patten, Donald Wesley, Op. cit., p. 141.
(38) Patten, Donald Wesley. 1966. The ice age phenomena, and a possible explanation, Creation Research Society Quarterly (Annual Issue), 3(1):64. May.
(39) Sanderson, Ivan. 1961. The continent we live on. Random House, Inc., N. Y., p. 52.
(40) Morris, Henry M. 1971. Proposals for science framework guidelines, Creation Research Society Quarterly, 8(2):150 September.
(41) Daly, Reginald. 1972. Earth’s most challenging mysteries. The Craig Press, Nutley, N, J., p. 236.
(42) Ibid., p. 37 (Ver também p. 142: “Não poderia ter havido um dilúvio universal sem uma idade glacial subseqüente.”).
(43) Patten, Donald. 1966. Op. cit., p. 63.
(44) Sanderson, Op. cit. p. 53.
(45) Hawkins, Robert. 1972. The invisible cities. The American West, American West Publishing Co., Palo Alto, Calif., p.40.
(46) Agassiz. Op. cit., p. 155.
(47) Dawson, J. William, Op. cit., p. 3.
(48) Agassiz. Op. cit., p. 161.
(49) Flint, Richard Foster. 1957. Op. cit., p. 57.
(50) Daly, Reginald. Op. cit., p. 165.
(5l) Ibid., pp. 165?166.
(52) Gansser, Augusto. 1964. Geology of the Himalayas. John Wiley & Sons, N. Y., p. 50.
(53) Fairbridge, Rhodes W. 1960. The changing level of the sea, Scientific American, 202(5):70. May.
(54) Cornwal, Ian. 1970. Ice ages, their nature and effects. Humanities Press Inc., N. Y., p. 57.
(55) Gilluly, Jas., Aaron C. Waters, e A. O. Woodford. 1968. Principles of geology, Third Fdition. W. H. Freeman and Co., San Francisco, Calif., p. 284.
(56) Haldane, J. B. S. 1967. Citação (in) Culture and the evolution of man. Ed. M. F. Ashley Montagu, Third Printing. Oxford University Press, p. 71.
(57) Springstead, Wm. A. 1971. The dying of the giants, Journal of The American Scientific Affiliation, 23(l):23. March,
(58) Kroeber, Alfred Louis. 1923. Anthropology. Harcourt Brace & Co., N. Y., p. 648.
(59) Springstead, William A. 1971. Monoglaciology and the global flood, Creation Research Society Quarterly, 8(3):177. December.
(60) Kurten, Bjorn. 1968. Pleistocene mammals of Europe. Aldine Publishing Co., Chicago, Ill., p. 19.
(6l) Bryan, Alan Lyle e Ruth Gruhn. 1963. American Antiquity, 29:307.
(62) Hapgood, Charles H. 1966. Maps of the ancient sea kings. Chilton Books Publ., Philadelphia & N.Y., p. 98.
(63) Watson, J. Wreyford e J. B. Sissons. 1964. The British Islas ? A systematic geography. Nelson, University of Edinburgh, p. 149.
(64) Hapgoodq Charles H. Op. cit., p. 98.
(65) Sanderson, Ivan. Op. cit., p. 64.
(66) Springstead, William A. 1971. Op. cit., p. 177. (Referência Nº 59).
Donald W. Patten, em seu livro “The Biblical Flood and the Ice Epoch” apresenta interessante modelo ilustrativo de como poderiam ter-se formado as camadas de gelo polares e conseqüentemente as glaciações, mediante gelo trazido por algum corpo celeste vindo do espaço sideral.