Ainda a respeito de assuntos ligados ao “mistério” da linguagem humana, a publicação “Perspectives on Science and Christian Faith”, periódico da “American Scientific Affiliation”, publicou em seu volume 51, número 2, de junho de 1999, interessante artigo de Glenn R. Morton intitulado “Dating Adam”, no qual destaca vários aspectos característicos que diferenciam o ser humano dos animais, dentre os quais especificamente a linguagem. Embora a conotação do artigo seja evolucionista-teísta, são bastante ilustrativos os comentários feitos sobre a linguagem, transcritos a seguir.

O ser humano é a única criatura sobre a terra que possui a linguagem. Poder-se-ia conceber o ato de adoração sem a existência da linguagem simbólica com a qual se transmitem os conceitos religiosos? Como o ritual exige simbolismo, meu gato, por exemplo, incapaz de usar símbolos, seria incapaz de qualquer ato de adoração. Sem a linguagem, não pode existir adoração, nem oração, e nem comunhão com Deus. Sem a linguagem, não teria sido possível transmitir a Adão a ordem para não comer do fruto da árvore, e sem essa ordem não teria havido nem o pecado e nem a queda. … A linguagem é crucial a tudo que nos torna seres verdadeiramente humanos.

… A Bíblia parece nos indicar que Deus ensinou Adão a falar, o que implica que é esta a razão da sua singularidade. Dar nomes aos animais é algo que nos relembra a repentina sede de saber o nome dos objetos que Helen Keller experimentou quando finalmente entendeu o que sua professora estava tentando transmitir-lhe.

A linguagem humana difere de todas as outras formas de comunicação animal por quatro razões.

Primeiro, a linguagem humana pode produzir uma quase infinita variedade de pensamentos, contrariamente aos sistemas de comunicação dos animais, que na natureza raramente excedem quarenta diferentes manifestações ou chamados. Quando são feitas tentativas de ensinar uma linguagem a chimpanzés, imediatamente torna-se aparente a sua limitação de vocabulário. Mesmo após seis anos de treinamento, o chimpanzé Kanzi dominava apenas 150 palavras, em contraste com uma criança de seis anos de idade, que já domina cerca de 13.000 palavras, e um estudante egresso do segundo grau que domina 60.000 palavras.

Em segundo lugar, a comunicação entre os animais é destituída de gramática e de complexidade, o que se observa até mesmo em símios treinados especificamente para dominar a linguagem. Eles não usam artigos, nem preposições nem categorias gramaticais auxiliares em sua quase-linguagem de comunicação. Pinker observou que a extensão média de uma “sentença” pronunciada por um chimpanzé permanece constante mesmo após anos de treinamento. Uma criança rapidamente manifesta sua capacidade de, partindo de sentenças de uma ou duas palavras, atingir expressões complexas com muitas palavras.

Em terceiro lugar, Deacon destaca que a singularidade da linguagem humana baseia-se no seu referencial simbólico; toda a comunicação não-humana é não-simbólica. A linguagem humana é um sistema de comunicação baseado em símbolos. A palavra exprime um conceito, e não realmente um objeto. Por exemplo, o conceito expresso pela palavra agricultor na linguagem usada nos Estados Unidos é bastante diferente do conceito expresso pela palavra nong ming em Chinês. Embora ambas as palavras se refiram àquele que produz alimentos a partir do cultivo do solo, nos Estados Unidos o agricultor é um homem de negócios independente, enquanto que na China ele contém uma forte idéia política como representante do proletariado. Há pessoas que tentaram afirmar que alguns animais manifestam simbolismo em seus gritos, citando como exemplo os três tipos diferentes de alarme feitos por uma determinada espécie de macacos para alertar seus companheiros quanto ao perigo proveniente da presença de leopardos, serpentes ou águias. Cada grito corresponde somente a um dos perigos específicos, e induz uma só resposta coletiva. Entretanto, isso não constitui um sistema simbólico. Deacon observou a invariança da resposta produzida por cada um dos gritos, e mostrou que o comportamento correspondente era instintivo. Dentre todos os exemplos de comunicação não-humana, somente dois símios, após anos de intenso treinamento, mostraram algum indício do uso de símbolos.

Finalmente, o cérebro dos seres humanos é estruturado de forma diferente do dos animais, em termos de produção da linguagem. Os seres humanos utilizam para a comunicação uma parte do cérebro distinta da que usam os animais. A comunicação animal é controlada pela base do cérebro e pelo sistema límbico, enquanto que a linguagem humana é controlada pelo córtex cerebral esquerdo. … Outra diferença entre as estruturas do cérebro do ser humano e dos animais diz respeito à “área de Broca”. Somente o cérebro humano possui essa área aumentada no lobo temporal esquerdo. De há muito a área de Broca tem sido associada com a fala, pois lesões nessa área produzem uma curiosa incapacidade de comunicação que foi denominada de “afasia de Broca”. Outra diferença entre o cérebro dos seres humanos e dos símios relaciona-se também com a fala. Os diferentes hemisférios do cérebro humano controlam funções diferentes. O hemisfério esquerdo tem maior relacionamento com o controle da linguagem do que o direito. Essa lateralização de funções produz ligeiras diferenças de forma entre os dois hemisférios, e o pesquisador Clive Gamble concluiu que a lateralização do cérebro é um requisito para a existência da linguagem.

Essas informações levam a três critérios objetivos que podem ser aplicados a restos fósseis para lançar luz sobre a capacidade lingüística dos chamados hominóides.

Primeiro, podemos examinar o interior da calota craniana procurando evidências de lateralização do cérebro.

Em segundo lugar, podemos examinar crâneos fósseis procurando evidências de uma área de Broca aumentada. A sua existência em crânios de hominídeos sugeriria o domínio da fala.

Em terceiro lugar, a relação entre a lateralização do cérebro e o uso da mão direita ou esquerda leva a outras possibilidades para a busca da capacidade de linguagem. Existe clara correlação estatística entre ter um maior lobo ocipital no hemisfério esquerdo, e ter um maior lobo frontal no hemisfério direito, e o uso da mão direita. A maioria dos animais apresenta uma proporção de 50% / 50% entre indivíduos dextros e canhotos, enquanto para os seres humanos essa proporção é de 90% / 10% . Devido à maneira pela qual um instrumento de pedra foi feito, pode-se determinar se foi feito por um indivíduo dextro ou canhoto. Assim, instrumentos de pedra podem ser estudados para se descobrir se foram feitos por indivíduos dextros ou canhotos, e poderão indicar a existência de lateralização do cérebro e portanto também da fala.

O artigo em questão tece outras considerações sobre a questão da linguagem, e apresenta ainda uma observação específica sobre os Neandertais, que (embora constando deste artigo

escrito sob o prisma do evolucionismo teísta) leva a importante conclusão dentro da conceituação criacionista. De fato, o tópico do artigo referente à linguagem encerra-se com a declaração de que “… a suposta incapacidade dos Neandertais para falar … baseou-se na reconstrução hipotética da sua laringe em uma posição que inibiria a formação de certas vogais. Este ponto de vista foi refutado pela descoberta de um osso hióide que demonstrou que a laringe dos Neandertais era idêntica à dos atuais seres humanos, e que portanto eles poderiam falar. Deacon conclui que os Neandertais foram provavelmente lingüisticamente e intelectualmente nossos iguais.”

Dentre a bibliografia citada por Glenn R. Morton encontram-se os seguintes títulos:

Terrence W. Deacon, The Symbolic Species (New York: W. W. Norton, 1997).

E. S. Savage-Rumbaugh, Language Training of Apes, in S. Jones et al., eds., The Cambridge Encyclopaedia of Human Evolution (Cambridge: Cambridge University Press, 1992).

B. Arensburg, et al., A Reappraisal of the Anatomical Basis for Speech in Middle Paleolithic Hominids, American Journal of Physical Anthropology 83: 137-46.