Introdução

Uma questão que invariavelmente é colocada por aqueles que se dedicam ao estudo das origens é saber qual ou quais as causas que levaram à rejeição do relato bíblico da criação e a aceitação da teoria da evolução para explicar a origem da vida. Durante muito tempo, o relato bíblico da criação era aceito pela maioria das pessoas, mas hoje vemos um quadro diferente. Muitos cientistas vêm um universo governado por leis naturais que não necessitam da ação de um Criador e a teoria da evolução é aceita como sendo capaz de explicar a origem da vida no nosso planeta. Mas como ocorreu esta mudança ao longo do tempo?

Muitas vezes, quando olhamos para os livros e compêndios, temos a idéia de uma ciência que parece transcender a existência humana e suas contradições. Recebemos os fatos e informações científicas protegidos pelo véu da atemporalidade e da neutralidade, como se fossem verdades absolutas. A maneira como os fatos científicos são apresentados, desvinculados do seu contexto social e econômico, esconde uma dimensão histórica que serve de palco para o desenvolvimento da ciência. O nosso objetivo é analisar o contexto econômico e social que favoreceu a substituição do relato bíblico da criação pela teoria da evolução nos meios acadêmicos e verificar o efeito negativo dessa substituição no desenvolvimento da biologia.

Na sociedade inglesa daquela época, os cidadãos viviam em condições de vida muito precárias, principalmente os trabalhadores. Eles tinham sido atraídos do campo para as cidades. O sofrimento da miséria era anestesiado, em grande parte, pela idéia de progresso futuro. O conceito central do Darwinismo, a competição, era muito útil à classe dominante, principalmente quando contraposto à idéia de solidariedade. Com ele era possível enfrentar os movimentos paredistas sem derramamento de sangue.

Em outros países, como a Itália e a Alemanha, naquela mesma época, esses elementos anticlericais burgueses tinham também sua utilidade. Na França, por outro lado, a queda da Bastilha tinha tido um significado de ruptura muito grande em relação ao sistema medieval. Logo no início do século passado, Napoleão tinha tomado para o Estado as funções educacionais. Na época de Pasteur, o problema maior da burguesia francesa era conquistar a estabilidade política. O clero não atrapalhava tanto quanto os anarquistas e os outros combatentes do Estado burguês. Não admira, portanto, o fato de Pasteur estar desenvolvendo pesquisas sobre a fermentação do vinho e produção de vacinas, enquanto os ingleses procuravam seu Bathybius.

Ao analisarmos estes fatos, podemos tirar uma lição importante. Devido à complexidade do fenômeno das origens, duas ou mais teorias que são antagônicas podem explicar os mesmos fatos ocorridos na natureza, e a rejeição de uma ou outra pode estar ligada a interesses que necessariamente não estão preocupados somente com a ampliação dos horizontes do conhecimento ou com alguma aplicação econômica direta. Podemos concluir que a necessidade da burguesia em conquistar o espaço educacional para a ampliação dos seus interesses foi determinante para dar toda força ao darwinismo e romper definitivamente com o poder eclesiástico.

Para nós, a aceitação da teoria da evolução teve um efeito negativo sobre o desenvolvimento de outra teoria biológica, o paradigma mendeliano da herança, cujos princípios não apresentavam uma certa relevância aos interesses da burguesia naquele momento.

Por que as importantes descobertas de Mendel não foram reconhecidas por um longo período de tempo (35 anos), após seus estudos estarem completos e publicados?

Finalizando, a teoria da evolução, apesar de não explicar o surgimento da vida, teve a sua aceitação nos meios acadêmicos, não só pelas idéias errôneas defendidas pela Igreja, mas também por servir aos interesses da burguesia que ansiava por espaço nas instituições de ensino. Além disso, a atenção que foi dada à teoria da evolução na segunda metade do século XIX, prejudicou o desenvolvimento da ciência ao desviar a atenção da maioria dos pesquisadores de uma rota que levaria ao estabelecimento mais rápido do paradigma mendeliano da herança.

A ORIGEM DO HOMEM

Compulsando exemplares antigos de revistas de divulgação científica, encontramos um artigo com o título acima publicado na Enciclopédia Bloch (Revista Mensal de Cultura) de agosto de 1969, sem o nome de seu autor, que foi identificado apenas com a qualificação de Professor de Biologia e Diretor do Curso de Ciências Médicas e Médico do Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro. Apenas a título de ilustração de como pseudo-verdades vão sendo consideradas como verdades absolutas, e também de como declarações errôneas vão sendo transmitidas descuidadosamente, destacamos os dois seguintes trechos do referido artigo:

1 – “Nas edições anteriores desta série, explicou-se como surgiu o Universo e, dentro dele, o planeta Terra. Esclareceu-se também que a vida apareceu espontaneamente, no decurso de alguns bilhões de anos, durante os quais a matéria orgânica se formou e se agregou, constituindo os primeiros seres unicelulares. Depois, as células passaram a se reunir formando os organismos pluricelulares. Aí, então, milhões de anos transcorreram, enquanto umas espécies originavam outras mais aperfeiçoadas. Lentamente o mundo se foi povoando.”

2 – “Ele (Darwin) havia empreendido uma viagem ao redor do mundo em seu iate particular, o Beagle, e observava nos oceanos e nas florestas em que aportava, como na selva amazônica, na qual esteve por duas vezes, uma constante luta entre os animais pela sobrevivência.”

Observações: A primeira das declarações acima, hoje em dia, seria considerada risível até mesmo nos meios evolucionistas, em face dos conhecimentos trazidos pela Biologia Molecular, que aponta para a “complexidade irredutível” das células e dos organismos, e também para a constância das características genéticas e o limitado domínio das mutações. A segunda declaração, além de também risível (Darwin em seu iate particular…), ainda mais é ridícula, pois o Beagle nunca aportou na floresta amazônica, e nem Darwin lá esteve sequer uma só vez! (Bastava ter lido o livro de Darwin “A Viagem de um Naturalista ao redor do Mundo”, do qual existe excelente tradução em Português!).