Neste artigo, iniciamos uma discussão sobre a posição criacionista com respeito à criação do Universo. Esclarecemos que Gênesis 1 fala sobre criação na Terra e imediações e não dá detalhes ou datas sobre a criação do Universo. Trazemos à tona o problema de autores, incluindo criacionistas, que divulgam opiniões e argumentos sobre a origem do Universo sem ter um conhecimento de causa apropriado. Destacamos que, de acordo com a Bíblia, fé e Ciência devem andar de mãos dadas; jamais devem ser consideradas como opostas entre si. Enfatizamos também que não se pode ter competência criacionista sem conhecer teorias científicas em primeira mão e, muito menos, confundindo ‘Ciência’ com ‘Filosofia da Ciência’. Indicamos ao leitor algumas áreas estratégicas nas quais é necessário um aprofundamento antes que seja viável uma discussão mais adequada sobre a origem do Universo.

Introdução
Muitos criacionistas não têm dúvidas de que é incompatível com a Bíblia a idéia de que o Universo teria surgido em uma grande explosão inicial, conhecida como ‘Big Bang’.

Surge então a questão: com que argumentos pode-se combater essa idéia de “Big Bang”? Talvez, procurando inconsistências no modelo do “Big Bang”. Os que aprenderam um pouco mais sobre Deus, sabendo o quanto Ele é metódico e que tudo o que Ele faz é coerente, esses podem argumentar que devem também existir evidências físicas que apoiem a posição criacionista.

Seguindo esta linha, muitos artigos foram publicados por autores de diversas áreas. Um dos grandes problemas fundamentais com esses artigos é o fato de que demonstram falta de conhecimentos em algumas áreas grandemente estratégicas para esta questão.

Em suma, combatem o “Big Bang” sem saber do que se trata. Aparentemente o que esses autores pensam ser a “teoria do Big Bang” é apenas uma idéia simplista baseada essencialmente em boatos sobre o assunto. Faz-se grande confusão entre as informações divulgadas ao público leigo e a informação usada pelos cientistas. O problema é que linguagens não-matemáticas não podem expressar de maneira funcional uma série de coisas fundamentais sobre a natureza, obrigando os cientistas que divulgam essas informações a buscar analogias e outros artifícios na tentativa de tornar os temas de sua pesquisa acessíveis ao público leigo.

É claro que essa falta de distinção entre Ciência e divulgação bem como a falta de preparo técnico sobre temas vitais ao assunto só tende a gerar embaraços ao Criacionismo, tanto no confronto com o Evolucionismo quanto no que se refere à harmonia lógica interna da filosofia criacionista.

Ao ler artigos assim produzidos, vários cientistas criacionistas (incluindo o autor destas linhas) têm sentido grande desconforto por causa da argumentação equivocada e, muitas vezes, suicida adotada tão amplamente. E, notem: argumentação equivocada tanto biblicamente quanto cientificamente. Estão a defender uma posição que não é bíblica em nome do Criacionismo. Concordamos que algo deveria ser feito para esclarecer essa questão. E este autor recebeu a incumbência de escrever alguns artigos, quando possível, cuja intenção é a de tentar desfazer alguns mal-entendidos mais graves dentre os que têm surgido nesta longa batalha entre Criacionismo e Evolucionismo.

Neste artigo, pretendemos apenas fazer uma introdução ao assunto da origem e evolução do Universo no contexto dos objetivos já mencionados. Apenas uma introdução por tratar-se de um assunto profundo e complexo, cuja compreensão exige conhecimentos matemáticos avançados (incluindo Análise Tensorial e espaços vetoriais com infinitas dimensões).

Evidentemente, não vamos supor que o leitor possua tais conhecimentos. Mas é muito importante que se saiba que as explicações que damos ao público leigo, incluindo as analogias que fazemos e as figuras de linguagem que usamos não fazem parte da pesquisa científica, ao contrário do que pensam alguns autores, e nem sequer podem conter todas as informações relevantes de uma teoria científica autêntica. …

Lembremo-nos de que teorias científicas autênticas não são meras conjecturas. São modelos matemáticos, conforme discutimos no artigo “Considerações sobre Ciência” (Folha Criacionista, número 66), e a tradução para uma das chamadas “linguagens naturais” (como português ou qualquer outra língua falada por algum povo da Terra) implica em monumentais perdas de informação e funcionalidade. E não basta introduzir algumas pequenas fórmulas solitárias em nível de Ensino Médio, como fazem muitos autores que combatem o modelo da grande explosão e como fazem também muitos autores evolucionistas. ….

Questões Importantes
As questões que poderíamos levantar em relação a este modelo são muitas. Podemos citar algumas das mais importantes para os criacionistas.

1. Como é o modelo do ‘Big Bang’? (Se não sou capaz de lidar com a expressão matemática deste modelo, não estou habilitado em primeira mão para apoiá-lo ou negá-lo: seria necessário consultar especialistas em Relatividade Geral e Cosmologia. Mas como saber em quem confiar?)

2. Que evidências tendem a apoiar este modelo? De que outras maneiras elas poderiam ser interpretadas?

3. Que evidências tendem a negar este modelo? Essas evidências estão bem estruturadas ou são apenas conjecturas qualitativas? Se são evidências bíblicas, decorrem de métodos rigorosos de estudo da Bíblia ou apenas estão seguindo um modismo teológico de interpretação?

4. É possível ser criacionista teísta, crer no relato bíblico da criação especial, considerando literal a semana de Gênesis 1 e ainda assim aceitar a viabilidade do modelo do ‘Big Bang’?

5. Quais são as implicações de considerar-se a semana de Gênesis 1 como sendo o período em que o Universo foi criado e estruturado? Essas implicações são compatíveis com as leis de Deus (leis físicas e morais já conhecidas)? A propósito, Deus viola Suas leis de vez em quando? Será que não houve violação de leis físicas na semana da criação?

Poderíamos levantar muitas outras questões como essas, cujas discussões e respostas encheriam muitos livros. No mínimo, precisaríamos de uma série de artigos para poder tratar destes problemas sem que ficássemos por demais presos à superficialidade.

Embora estudar tudo isto pareça uma tarefa gigantesca, estas são questões importantes que exigem esclarecimentos, visto como tantos têm-se aventurado nesta área sem conhecimento de causa, divulgando idéias que não favorecem o Criacionismo, ainda que, à primeira vista, pareçam estar em conformidade com a Bíblia. …

Física e Teologia
Alguns tendem a pensar que as coisas que Deus faz não têm explicação. Parecem pensar, por exemplo, que, se explicarmos um milagre por meio de leis naturais estaremos descartando a Deus da explicação. Neste ponto, muitos evolucionistas e criacionistas concordam.

Que ateus pensem assim é compreensível. Mas criacionistas não podem pensar dessa maneira coerentemente. O maior milagre que existe é o Universo e suas leis. A existência de leis físicas é um milagre. Deus fez e faz isso. Como podemos então definir milagre como sendo uma violação de leis físicas?!

Algumas pessoas parecem pensar que, de alguma forma, fé e razão são coisas opostas. Uns falam como se o princípio de testar tudo antes de aceitar fosse apenas uma má influência do racionalismo (“ponde tudo à prova; retende o que é bom”, I Tessalonicenses 5:21; ver também Atos 17:11). Outra perversão é imaginar que ter fé é acreditar em algo com pouca ou nenhuma evidência. Este conceito perverso de fé (que alguns pensam basear-se em Hebreus 11:1) pode levar as pessoas a rejeitar a Bíblia ou a rejeitar a Ciência. Em qualquer desses casos, a pessoa estará desqualificada para entender a relação entre a revelação de Deus por meio da natureza (em linguagem Matemática, isto é, de regularidades) e a revelação de Deus por meio de Sua Palavra escrita em linguagem humana. E sem entender essa relação, não somos capazes de apreciar devidamente o significado da mensagem criacionista apresentada em Apocalipse 14, muito menos poderemos cumprir nossa missão de levar essa mensagem ao mundo.

A verdadeira Ciência nunca entra em contradição com a Bíblia. Esta afirmação é válida se definirmos ‘Ciência verdadeira’ como sendo a aplicação rigorosa do método científico e se, da mesma forma, utilizarmos uma rigorosa metodologia de exegese bíblica para entender a Bíblia, sem jamais esquecer de pedir a orientação do Espírito Santo, tanto para entender a Ciência quanto para entender a Bíblia.

Tudo o que Deus faz tem uma explicação, mesmo que não seja acessível aos mortais. Esta explicação envolve um objetivo (“por quê?” e “para quê?”) e uma maneira de fazer (“como?”).

Ao estudarmos a Bíblia, entendemos mais e mais os objetivos de Deus. Ao estudarmos as leis da natureza, entendemos mais e mais como Deus age, os métodos de trabalho que Ele escolhe. É verdade que a natureza também nos dá pistas sobre os objetivos de Deus, assim como a Bíblia nos dá pistas sobre como Deus faz as coisas. Mas a diferença está na ênfase e na quantidade de informações úteis para essas abordagens.

É por isso que a Bíblia lança luz sobre a natureza e a natureza lança luz sobre a Bíblia. Não podemos ser criacionistas competentes se nos ativermos somente a uma dessas fontes. Ambas são a Palavra de Deus e devem ser estudadas. …

Considerações Finais
Uma das principais circunstâncias que abrem as portas para tantos mal-entendidos é a de que diversos autores escrevem artigos e livros fora da sua área de conhecimento. Não que isso em si seja um problema, mas a falta de embasamento tem causado estragos apreciáveis na construção de argumentos tanto criacionistas quanto evolucionistas.

Esse também é um problema extremamente comum em artigos e livros que falam sobre Ciência e Religião bem como na área da Filosofia da Ciência. De fato, freqüentemente os autores que falam sobre Ciência e Religião parecem ter sido educados pelos equívocos (muitas vezes até elementares) tão amplamente divulgados até oficialmente na área da Filosofia da Ciência. Quando falamos nestes equívocos, parece que estamos assumindo uma postura de donos da verdade. Mas tratam-se simplesmente de aspectos do nossa vivência como cientistas que geralmente são mal-interpretados por pessoas de outras áreas, pois possuem uma formação que tende a não levar em conta esses aspectos de maneira funcional. Estão essencialmente contemplando uma tecnologia que para eles é alienígena e faz pouco sentido e tendem a interpretá-la à luz de alguns preconceitos.

Fica então, o alerta: se você deseja aprofundar-se em Ciência ou em modelos científicos como o “Big Bang” ou se quer estudar questões de Ciência e Religião ou Criacionismo, estude a Bíblia, estude Matemática (especialmente equações diferenciais), leia os livros técnicos da área e não busque essas fontes de desinformação. …

(Leia todo o artigo na Revista Criacionista)