Com o título acima, a “American Scientific Affiliation” – ASA, conhecida entidade criacionista norte-americana, publicou em seu periódico “Perspectives on Science and Christian Faith”, de setembro de 2003, um interessante artigo de autoria de Francis S. Collins.

Neste artigo, Collins faz uma pequena introdução, mas bastante significativa, para em seguida falar um pouco de sua experiência pessoal como cristão, e finalmente tratar de interessantes detalhes do Projeto Genoma.

Consideramos de utilidade para nossos leitores transcrever na integra a introdução e as declarações de Collins a respeito de sua fé, seguidas de alguns trechos de sua exposição sobre o Projeto Genoma.

Introdução

Apesar dos melhores esforços da “American Scientific Affiliation” para eliminar o hiato entre ciência e fé, poucos encontros de cientistas envolvidos com Biologia têm incluído qualquer discussão importante sobre o significado espiritual da revolução que está ocorrendo na Genética e na Genômica. A maior parte dos biologistas e geneticistas parece ter concluído que ciência e fé são incompatíveis, porém poucos que aceitam esta conclusão parecem ter considerado as evidências seriamente.

Da minha perspectiva de Diretor do Projeto Genoma Humano, as visões de mundo, científica e religiosa, não somente são compatíveis, como também inerentemente complementares. Assim, é uma fonte de grande preocupação a profunda polarização entre as perspectivas científicas e religiosas, ora claramente evidenciada nos campos da Biologia e da Genética. Extremados defensores de cada campo pintam quadros crescentemente exclusivistas que forçam os pesquisadores sinceros a escolher uma das visões em detrimento da outra. Como tudo isso deve ferir os sentimentos de Deus! A elegância e a complexidade do genoma humano é uma fonte de profundo embevecimento. Suas maravilhas somente reforçam minha fé, pois provêem relances de aspectos referentes à humanidade, que em sua onisciência Deus sempre conheceu, mas que somente agora nós estamos começando a descobrir.

Declarações de Collins sobre a sua Fé

Estamos na beira de uma infinidade de desenvolvimentos impulsionados pela Genética, que requerem exame cuidadoso e deliberado. Aqueles de nós que têm a bênção de ter um firme fundamento para decidir em que direção iremos (a saber, nossa fé), precisam estar profundamente engajados, para que o resultado seja algo de que o Deus todo poderoso possa se orgulhar.

O Salmo 8 refere-se à interface entre a ciência e a fé:

“Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o Teu nome, pois expuseste nos céus a Tua majestade. Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos Teus adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingador. Quando contemplo os Teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele Te lembres? E o filho do homem, que o visites? Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus, e de glória e de honra o coroaste. Deste-lhe domínio sobre as obras da Tua mão, e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu e os peixes do mar, e tudo o que percorre as sendas dos mares. Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o Teu nome!”

Como cientista, aprecio esse Salmo porque ele realmente exprime o fundo do coração de Davi e descreve as glórias dos céus, as maravilhas da Biologia, e ainda apresenta a mensagem real: “Quão magnífico em toda a terra é o Teu nome!”

Durante cerca de vinte anos tenho sido membro da ASA. Esta é a primeira vez que pude comparecer a um encontro anual. Confesso que me vejo constrangido a fala sobre a interface entre a ciência e a fé, pois muitos dos presentes já escreveram eloqüentemente sobre as peculiaridades da síntese desses dois diferentes componentes. Minha conceituação própria a esse respeito ainda está em formação. Vocês encontrarão lugar para me desafiar, e espero que o façam. Para mim, a ASA tem sido constante fonte de encorajamento ao longo desses últimos cerca de vinte anos.

Observem estas duas imagens bastante ilustrativas, que são tão parecidas entre si: O belo vitral rosiforme da York Minster Cathedral, e uma vista pouco comum do DNA, em que a espiral é vista de dentro para fora, de tal modo que a hélice dupla adquire um aspecto particularmente belo.

Estas imagens podem representar duas visões de mundo que a maioria das pessoas julgam incompatíveis – a visão espiritual, e a visão científica. Alternativamente, a síntese dessas duas visões de mundo pode constituir uma magnífica oportunidade para apreciar cada uma delas de maneira particularmente especial.
Minha formação

Nasci e cresci em Shenandoah Valley, na Virginia, em um lar onde era exercitada a fé de maneira regular. Meus pais eram pessoas muitos criativas, especialmente no teatro e nas artes. Meus primeiros anos escolares, até a sexta série, foram em casa, não pelo desejo de me instilarem crenças religiosas, como hoje é freqüente, mas para me manter afastado das escolas do povoado, cujos professores eram tidos como pouco incentivadores dos instintos criativos dos quatro filhos de minha mãe. Ela me inspirava o desejo de aprender coisas, porém pouco eu aprendi sobre a fé ou a crença em Deus. Freqüentei a igreja a partir dos seis anos de idade, por uma razão bastante específica – participar do coral juvenil para aprender música. Lembro-me de uma admoestação de meu pai: “ Você está lá para aprender música. Você enfrentará outros questionamentos sobre teologia. Não preste atenção neles, pois eles somente deixarão você confuso”. Assim, segui essas instruções e aprendi bastante sobre música, mas nada aprendi sobre o restante dos serviços religiosos.

Quando meus amigos no dormitório do colégio perguntaram-me sobre o que eu cria, verifiquei que não tinha absolutamente qualquer idéia sobre o assunto. Foi muito fácil para eu decidir-me que não cria em nada daquilo sobre o que os outros falavam – sobre Cristo, ou outras formas de fé religiosa. Eu supunha que tudo isso era superstição. Eu tinha vivido bem sem isso, e não sentia qualquer necessidade particular de aceitar tudo isso.

Terminei minha graduação em Química, e iniciei um doutorado em Física Química em Yale. Após me aprofundar nesse campo específico, e concluir que as únicas verdades reais eram equações diferenciais de segunda ordem, parecia-me haver menos necessidade ainda de Deus. Tornei-me assim um notório ateu no curso de pós-graduação. Se alguém fosse almoçar comigo, certamente não apreciaria a experiência. Eu não tinha absolutamente interesse algum em coisas relacionadas com a vida espiritual, pois não achava que tais coisas realmente existissem.

Nessa ocasião, mudei de direção em minha carreira. Decidindo que a Biologia era bastante mais interessante do que eu supunha anteriormente, determinei-me ingressar na carreira médica. Eu desejava seguir essa carreira para dirigir minha inclinação para a ciência na direção da saúde humana. Como estudante de medicina, deparei-me com muitas pessoas passando por sofrimentos terríveis, afetadas por doenças pelas quais não tinham culpa. Embora eu não conseguisse ajudá-las, observei que algumas dessas pessoas pareciam possuir uma incrível fé. Não contendiam com Deus, o que eu achava que deveriam fazer. Se eles acreditavam em um Deus que permitia que o câncer os atingisse, por que não o estavam confrontando? Pelo contrário, eles pareciam derivar esse notável sentimento de conforto de sua fé, mesmo em ocasiões de enorme adversidade. Essa posição realmente me intrigava. Poucos de meus pacientes me perguntaram em que eu cria. Eu titubeava, e me via muito embaraçado ao dizer: “Eu não sei!”

Então algo me aconteceu. Como cientista, sempre eu tinha insistido na coleta rigorosa de dados antes de tirar uma conclusão. E apesar disso, na questão da fé jamais eu tinha coletado qualquer tipo de dado. Eu não estava sabendo o que eu rejeitava. Então decidi que eu deveria estar um pouco melhor fundamentado no meu ateísmo. Seria melhor que eu descobrisse, afinal, do que se tratava. Encontrando na rua um paciente que era ministro metodista, apresentei-lhe meus desafios. Após ouvir meu questionamento, e entendendo que eu não estava possuindo bastante informação, ele me sugeriu que eu lesse o Evangelho de S. João. E foi o que fiz. Descobri que as Escrituras eram interessantes e faziam-me pensar, ao contrário do que sempre pensei que a fé fazia. Entretanto, eu não estava pronto ainda para considerar a plausibilidade da fé. Eu necessitava uma base intelectual maior para superar meus próprios argumentos sobre tudo isso ser apenas superstição. Com essa intenção, voltei-me ao livro clássico “Mere Crhistianity”, de C. S. Lewis. (Até hoje “Mere Crhistianity” parece ainda ser o melhor livro para ser posto nas mãos de um jovem em busca da verdade sobre a racionalidade da fé). Ao ler “Mere Crhistianity”, logo minha visão materialista foi posta em ruínas. Particularmente incisivo foi para mim o argumento de Lewis sobre a lei da natureza humana. Por que ela existe? Por que ela é universal? E também o seu argumento: Não seria este o lugar para procurar evidências de um Deus pessoal, perfeito e santo, se é que ele existe?

Os sociobiologistas alegarão que, afinal, de alguma maneira a natureza humana é uma conseqüência da evolução. Isso nunca me pareceu uma alegação particularmente impelente como explicação para a lei moral que conhecemos como algo intrínseco, embora freqüentemente a desobedeçamos. Segue uma magnífica frase de Lewis:

“Descobrimos mais a respeito de Deus a partir da lei moral do que do universo em geral, da mesma maneira que descobrimos mais a respeito de uma pessoa ouvindo sua conversação do que olhando para a casa que ele construiu.”

Compreendi que minha vida científica estava olhando para a casa, enquanto eu jamais havia considerado a conversação (a lei moral) como evidência de Deus. Eu precisava estudar o Criador. Após uma luta interna de vários meses, compreendi que, se existisse Deus, Ele era santo, e eu não. Pela primeira vez compreendi quão deficiente eu era. Então entendi o que Cristo fez provendo uma ponte entre Deus, com toda a sua santidade, e mim, com toda minha imperfeição. Finalmente, cedi e rendi-me – não talvez como Lewis, “o mais abominável e relutante converso em toda a Inglaterra”, que é como ele descreve sua conversão.

Certamente também não senti uma onda de calor emocional. Pelo contrário, parecia-me estar caminhando por algo completamente desconhecido. Deus é bom, e no decorrer de muitos outros anos de aprendizagem – e ainda estou percorrendo esse caminho – minha fé se tornou a luz que passou a guiar minha vida.

Minha visão do mundo científico começou cedo. Interessei-me muito por ciências quando ainda estudante do segundo grau, e em seguida pela química, continuando pela medicina, e finalmente pela genética como meio de desvendar todos os difíceis mistérios das doenças. Certamente, nunca imaginei que pudesse receber um convite para participar do “National Institutes of Health” (NIH) e tornar-me um servidor público, dirigindo um projeto visando ao mapeamento e seqüenciamento de todo o alfabeto do manual do ser humano. Esse foi verdadeiramente um notável momento na história, momento esse que estamos vivendo essencialmente agora. Passaram-se nove anos desde que vim para o NIH, durante os quais fiz uma carreira incrível, que ainda continua! Sob muitos aspectos, estamos no fim do começo. Para onde estamos indo em seguida, penso eu, haverá ainda impactos mais profundos na medicina e na sociedade. Como cristãos, temos uma perspectiva especial sobre como conduzir essa nova revolução de maneira a ter os máximos benefícios seguindo o melhor caminho.

O Futuro do Projeto Genoma Humano

O Projeto Genoma Humano (PGH) já tem doze anos de vida. Todos os seus objetivos iniciais foram atingidos com antecipação de três anos relativamente à data prevista, de 2005. Fico contente ao dizer que o PGH realizou-se com recursos financeiros muito menores do que os previsto inicialmente. O PGH é um projeto financiado pelo governo federal americano, que gastou menos do que o previsto, e que foi realizado antecipando-se ao prazo!

As aplicações do PGH excederão as expectativas virtualmente em todas as áreas da medicina, porque praticamente todas as doenças têm alguma componente genética. Os cientistas tenderam a enfatizar as doenças que são herdadas geneticamente, como a fibrose cística, a doença de Huntington ou a anemia falciforme. Porém, virtualmente todas, exceto talvez alguns casos de trauma, têm componente genética – diabetes, doenças cardíacas, distúrbios mentais, asma, hipertensão, e câncer. Todas essas doenças tendem a se manifestar hereditariamente, o que significa que deve haver algo na seqüência do DNA que predispõe as pessoas ao risco.

Além disso, compreendemos que não existem indivíduos perfeitos. Esse é o equivalente biológico do pecado original. Todos nós somos imperfeitos; todos nós estamos geneticamente longe da perfeição. Não existe seqüência de DNA perfeita; existe erro em todos nós. Todos nós temos provavelmente dezenas de locais em nossa seqüência de DNA em que gostaríamos que estivesse um T (timina), mas onde realmente está um C (citosina). Conseqüentemente, essa alteração acarreta um risco para nós com relação a alguma doença. Não seremos incomodados por muitos desses riscos porque não encontraremos o gatilho ambiental necessário para ocasionar a doença, ou não teremos o conjunto de susceptibilidades para nos levar a transpor certo limite. Entretanto, temos todos nós algo que está oculto em nosso genoma, e carregamos a probabilidade de que nosso genoma específico poderá nos causa algum incômodo. Estamos prestes a podermos descobrir, dentro de aproximadamente 10 anos, quais são essas probabilidades, para cada um de nós. É realmente sério contemplar todo esse potencial.

Hoje, cinqüenta anos após Watson e Crick terem desvendado a estrutura da hélice dupla, acho interessante contemplar a elegância do DNA que armazena informação – essa linguagem que é partilhada por todas as formas de vida. De maneira bastante fácil para ser copiada, esse código digital permite levar uma quantidade enorme de informação para dentro de cada célula do corpo humano. Essa dupla hélice de DNA é construída com pares básicos de letras. O genoma humano todo consiste de 3 bilhões desses pares, todos armazenados dentro do núcleo da célula (Ver Figura 2 na RC).

Embora este seja um número enorme, para mim é surpreendente que ainda seja um número finito. Os 3 bilhões da letras são capazes de dirigir todas as propriedades biológicas de um ser humano. Apesar de existir uma imensidade de propriedades biológicas em um ser humano, especialmente se considerarmos as complexidades do crescimento, essa estrutura ainda é suficiente.

O PGH visava a leitura de todas essas letras, e o desenvolvimento de técnicas que levem à compreensão do significado dessa linguagem, sem o que de pouco serviria. Assim, enquanto parte do sucesso do projeto foi a leituras das letras, a parte principal foi o desenvolvimento de outros métodos para a compreensão do que está codificado nelas.

…Descobrimos algumas belas surpresas na leitura da seqüência do genoma humano. Dentre elas podemos destacar as seguintes (transcreveremos aqui apenas uma delas):

Os seres humanos têm menos genes do que se esperava.

Minha definição de gene, aqui, já que é diversificada a terminologia utilizada, é um segmento do DNA que codifica uma proteína determinada. Provavelmente há segmentos do DNA que codificam RNA que não produzem proteínas. Esse entendimento está somente em seu início, e pode ser muito complexo. Porém, a definição padrão do gene como “um segmento de DNA que codifica uma proteína” nos leva surpreendentemente ao pequeno número de cerca de 30.000 genes humanos. Considerando que temos estado a falar de cerca de 100.000 genes durante os últimos quinze anos (e é ainda o que a maioria dos livros didáticos afirma), isso foi algo chocante para algumas pessoas, penso que porque o número de genes de outros organismos mais simples já haviam sido determinados anteriormente. Afinal de contas, um nematóide tem 19.000 genes, e a mostarda selvagem 25.000, e nós só temos 30.000?! Isso está correto? Pior ainda, quando decodificaram o genoma do arroz, ele apareceu com cerca de 55.000 genes. O que isso significa? Certamente, um extraterrestre vindo do espaço, olhando para um ser humano e para um pé de arroz, diria que o ser humano é biologicamente mais complexo, sem dúvida. Assim, o número de genes não parece ser significativo!

O artigo continua com numerosas outras considerações sobre aspectos genéticos e médicos, de caráter bastante técnico, que deixamos de transcrever pela sua especificidade. Finalizamos esta nossa transcrição com as considerações sobre Bioética bastante interessantes expostas pelo autor:

…Porém serão desenvolvidos muitos debates sobre questões éticas. O que dizer dos usos não-médicos da genética? Um artigo na revista Science descreveu um grupo da Nova Zelândia que identificou uma variante em um gene do cromossomo X que, conforme eles, desempenha um papel de destaque na questão sobre se rapazes que na infância sofreram sevícias, se tornam criminosos ao crescerem (2). Nesse estudo, em particular, mais de 30% dos que foram seviciados na infância, e que tinham essa variante específica no gene monoaminaoxidase, foram condenados devido a atividades criminosas. Esse percentual foi muito superior ao obtido considerando-se isoladamente cada um dos dois fatores citados. Poder-se-ia imaginar como isso se desdobraria no sistema judicial atual? Seria uma defesa a favor da atividade criminosa – “meus genes me levaram a proceder assim”, e ainda “tive uma infância prejudicada, e portanto não sou responsável”? Ou isso seria usado de maneira a negar oportunidades a quem tiver essa versão de alto risco de gene monoaminaoxidase, por causa de um eventual possível mau comportamento futuro? Esses são assuntos sérios envoltos nas sombras do futuro – não tão distante.

Especialmente em face destas últimas declarações de Francis S. Collins, pode-se adiantar a pergunta que sem dúvida fazem muitos interessados no aspecto ético dos problemas que poderão surgir:: Aproxima-se de nós uma catástrofe bioética? E com relação a estes aspectos, conclui Francis S. Collins:

Uma perspectiva de fé será cada vez mais necessária. De fato, o debate desses assuntos bioéticos é feito por pessoas inteligentes, porém nem sempre firmadas sobre um fundamento sólido quanto ao sentido do que é certo ou errado. Os cristãos são incrivelmente abençoados por terem uma Rocha sobre a qual se firmarem ao tentarem fazer juízo sobre complicados tópicos éticos. Certamente, embora essa Rocha faça alguns de nossos colegas ficarem apreensivos, sob nossa perspectiva isso deveria nos colocar em uma posição especial para contribuirmos nesse debates de maneira altamente significativa.

(Leia todo o texto com Figuras/Fotos na Revista Criacionista)