INTRODUÇÃO

Identidade e diálogo

Segundo alguns, o diálogo consiste em temperar as próprias convicções, de maneira a ir ao encontro das convicções dos outros. Em resultado de ir ao encontro de todos, entretanto, acaba-se por diminuir a propria identidade, o que porém não impede de dialogar também com quem não fosse semelhante quer doutrinariamente quer em comportamento.

Jesus nasceu e viveu como hebreu, praticamente, mas dialogou e estabeleceu relacionamentos com uma grande variedade de pessoas muito diferentes dele: com uma mulher pagã, com os desprezados samaritanos, com um centurião romano, e com outros hebreus, independentemente de serem praticantes (fariseus, prostitutas e pecadores diversos). Simpatizou-se e fez amizade com eles, mas sem alterar seu próprio modo de ser e sem fazer concessões particulares. A mulher pagã teve de reconhecer a sua inferioridade com relação aos que pertenciam ao povo eleito (Mateus 15:21-28); à mulher samaritana, lembrou que a salvação não vinha deles, como cria, mas “dos judeus” (João 4:22); o leproso samaritano foi curado enquanto se dirigia não aos seus sacerdotes, mas aos dos hebreus (Lucas 17:11-19); o centurião romano teve de confessar que sua casa era indigna de receber Jesus, por ser impura conforme as normas hebraicas (Lucas 7:1-10); os pecadores diversos sentiam que Jesus estava próximo deles no plano humano, mas no plano moral eram eles que deviam mover-se em direção a Jesus e mudar de vida (Mateus 9:9-13, Lucas 7:36-50).

Atenuar as próprias convicções freqüentemente não facilita o diálogo, mas sim o torna pouco interessante. Pode-se, ao contrário, manifestar abertamente o que se crê, sem provocar restrições: ao se prestar atenção ao modo pelo qual nos exprimimos, ao termos uma atitude de escuta às objeções e ao levá-las em conta; ao não procurarmos impor nossas convicções próprias, mas nos limitarmos a esclarecer nosso ponto de vista; ao admitirmos os nossos pontos fracos e reconhecermos os pontos fortes do interlocutor. Tendo esta atitude, poder-se-á constatar que não é difícil ter escuta e diálogo até por parte de quem se encontra no extremo oposto. Forte identidade e amplo diálogo é portanto a atitude que é preferível ao se defrontar com um assunto não muito fácil.

Uma leitura responsável

É necessário que o leitor seja paciente e disposto a prestar atenção não superficial, tanto pela dificuldade do assunto tratado em si, como também pelo estilo sintético aqui adotado, e pela variedade das argumentações trazidas a campo (históricas, culturais, bíblicas, científicas). Precisaria também estar um pouco familiarizado com as várias questões, pois de outra maneira será inevitável que alguma coisa possa não ser compreendida plenamente. Em compensação, as argumentações trazidas são, às mais das vezes, originais, e podem de algum modo oferecer idéias úteis para um aprofundamento pessoal. Não se exclui fazer-se no futuro uma versão mais facilmente compreensível, mas agora se desejou apresentar “a jato” (isto é, em poucas horas) estes pensamentos, sobre os quais o autor já estava refletindo há alguns anos.

Darwin como “moeda falsa”

Um exemplo. O governo dos Estados Unidos combate os dólares falsos, e considera “piores” aqueles que mais se parecem com os dólares verdadeiros. Todo dólar falso, de algum modo, tem em si muito do dólar verdadeiro, e se alguém passa a odiar tudo que existe em um dólar falso, arrisca-se a rejeitar também os dólares verdadeiros.

Aplicação. Darwin havia terminado os estudos para pastor protestante e pertencia a uma classe social (burguesia) e à nação (Grã Bretanha) que haviam sido fortemente influenciadas pela Bíblia. Darwin não se colocou abertamente contra a sociedade à qual pertencia, e foi homenageado pelo ingleses tanto antes como depois de haver publicado a sua principal obra evolucionista (A Origem das Espécies, 1859). Ele procurou inserir a sua novidade no meio dos pressupostos da sociedade na qual vivia, e somente poucos se aperceberam (por exemplo, o bispo Wilberforce) que ele tinha substituído a verdade bíblica por algo que, por assemelhar-se a ela, a destruía. Assim, para combater a “moeda verdadeira” (a Bíblia), Darwin escolheu substituí-la por algo o mais possível semelhante, mas de valor inteiramente diferente.

O evolucionismo afirma oficialmente que os seus mecanismos atuam ainda hoje, mas lentamente, e mediante um modo não ainda claro, para originar a formação das várias espécies (de fato), em um tempo remoto e fora de nosso controle. Uma expressão do tipo “há milhões de anos, de um modo que não compreendemos inteiramente” posta habitualmente no início dos discursos evolucionistas, permite assim inserir de antemão aquilo que se deseja demonstrar. O crente na Bíblia é criticado porque coloca a questão das origens fora de sua possibilidade de indagação, entretanto o evolucionista é de fato constrangido a refugiar-se em remoto tempo “mágico”, que vai além de sua capacidade de compreender. Não se elimina o mistério substituindo o desconhecido pelos símios (mesmo utilizando uma linguagem que parece científica): semelhança com o criacionismo e ambigüidade são duas características do evolucionismo que encontraremos sempre.

O darwinismo, sobre estas bases, apresenta-se então como uma “moeda falsa”, e por isso deve ser combatido, mas sem se repudiar o que nele existe de verdade. Quem na realidade combater todos os aspectos do darwinismo, acaba por desacreditar certas características da própria Bíblia (como será visto melhor mais adiante). É o habitual problema das “heresias”, as quais exageram algumas verdades, ou as corrompem, ou as colocam em um contexto diverso do bíblico, mas conservam em si mesmas sempre muitas coisas corretas que devem ser salvaguardadas (e sempre certas “heresias” se desenvolvem porque o ambiente no qual nascem exagerou a parte oposta, e por este motivo representam em geral um sinal de alerta).

Darwin como “moeda falsa”, Darwin como herético, são estes os pontos de vista sob os quais pretendemos examiná-lo, desagradando um pouco a todos:

1) Aos evolucionistas, os quais não renegam a Darwin mesmo quando não partilham de algo proveniente dele;
2) Aos criacionistas, entre os quais me incluo, que o havendo justamente indiciado como inimigo, em geral procuram dizer dele todo o mal possível;
3) E também aos assim chamados concordistas, os quais mesclam o evolucionismo e a Bíblia em percentuais diversos, como se fossem café com leite, freqüentemente sem ter bem claro quais são os elementos possíveis de serem aceitos e as coisas que, pelo contrário, são radicalmente rejeitadas.

Ser contra todos, porém, paradoxalmente pode significar não ser contra ninguém de maneira particular, e isso poderia favorecer uma escuta não setorial das argumentações expostas.

REALIDADE SIM, ATUALISMO NÃO

Realidade, sim

Quem crê na Bíblia não fecha os olhos diante da realidade. A Bíblia não é um livro de divagações fantasiosas sobre um mundo imaginário, mas é essencialmente um relato de coisas realmente acontecidas. Deus é inicialmente apresentado como o bom Criador de tudo, e depois do pecado de Adão se manifesta também como um sereno Juiz que condena o transgressor, mas com a finalidade de reeducá-lo. Toda a realidade que circunda tudo isso, por essa razão, também nos seus aspectos desagradáveis, revela algo sobre Deus, e esconder isso (ou, pior, negar isso) no fundo é uma rejeição do próprio Deus.

Após a queda de Adão, a violência e o homicídio entraram no mundo, o qual se tornou cada vez mais corrompido, até ao ponto de rejeitar e crucificar Jesus Cristo. Jesus não se ilude sobre como será a condição humana depois dEle, e até o fim deste mundo: “Porquanto nação se levantará contra nação e reino contra reino; e haverá fomes e terremotos em vários lugares” … “E este evangelho do reino será pregado por todo o mundo, para testemunho a todas as nações; e então virá o fim” (Mateus 24:7, 14).

A Bíblia afasta o otimismo fácil e não pensa que esta humanidade corrompida possa realizar a paz antes da volta de Jesus. A violência e a guerra, por isso, fazem parte deste mundo, como também a morte: devemos trabalhar para nos contrapormos a elas, embora sabendo que serão totalmente eliminadas somente quando Deus instaurar plenamente o Seu reino.

Jesus deixou Pilatos permanecer no poder, pois as autoridades políticas (mais ou menos daquele tipo) continuarão a governar enquanto não se acabe de construir os fundamentos do “novo mundo”, fundamentos representados pela formação de grupos de crentes em Jesus de todas as línguas, povos e tribos (Apocalipse 7:9). Nenhum Reino de Deus é real e plenamente possível antes da volta do Rei Jesus a esta Terra.

Darwin sabia destas coisas, e quando disse que este mundo é regido pela “luta pela existência” e pela “seleção natural”, isto é, pelo conflito mesmo entre os membros de uma mesma espécie, disse algo óbvio (embora o exagerasse). Mas se Darwin exagerou por um lado, outros podem exagerar pelo lado oposto. Alguns, por exemplo, tanto entre os religiosos quando entre os ateus, pensam que a guerra, a fome e todas as outras calamidades poderiam ser imediatamente eliminadas mediante a boa vontade humana, antes da volta de Cristo, e também sem uma clara conversão do mundo (conversão a Cristo, não a um deus ecumênico que, de tão vago, cabe bem em todas as religiões do mundo).

Existem, ainda, aqueles que insistem em definir como “natureza incontaminada” aquela onde o homem ainda não pôs os pés, mas onde, entretanto, as várias espécies mantêm-se em equilíbrio através de uma desapiedada luta recíproca, esquecendo o fato de que a própria degradação foi produzida pelo primeiro pecado de Adão, após o qual, creio eu, Deus teria tido que “remodelar” a natureza, fazendo-a de tal modo que também refletisse a perversão humana De fato, após a queda do homem, a sua dieta muda: não mais só sementes e frutos, mas também a erva originalmente destinada aos animais (Gênesis 1:29-30, 3:18), enquanto a indicação explícita para comer carne encontramos somente depois do Dilúvio (Gênesis 9:3-4). E quando, no término deste tempo, Deus atuar de novo sobre a criação, fará de maneira que o leão voltará a comer palha, e que a víbora não mais seja perigosa (Isaías 11:7-8).

Se é somente Ele que pode fazer isto, então significa que foi Deus mesmo que desejou que a natureza refletisse a perversidade do homem, tornando-se isso um sinal da intolerância de Deus contra o pecado, com a intenção de produzir no homem o arrependimento. A Terra é um dom de Deus ao homem (Gênesis 1:28, Salmo 115:16) e quanto mais o homem se perverte, mais aquilo que está em sua posse se torna pervertido (Gênesis 3:17-18, Romanos 8:20). A presa da víbora, por exemplo, com seu mecanismo perfeito para injetar veneno mortal na vítima, tem muito a dizer sobre nós mesmos, sobre a natureza e sobre Deus: Darwin se concentra muito sobre isto, e nós, criacionistas, devemos prestar atenção para não descuidar destes aspectos inquietantes. A criação que deveríamos exaltar é aquela que existiu no fim dos primeiros seis dias (e que será restaurada no fim dos tempos): daquele mundo perfeito e harmonioso existem traços muito amplos e claros, porém mesclados também aos efeitos do pecado do homem.

Concluindo, aquilo que uma postura neo-pagã tende a chamar de “natureza incontaminada”, pelo contrário, segundo a Palavra de Deus, é uma natureza que “geme e está em trabalho de parto”, esperando ser libertada da “escravidão da corrupção”, quando também o homem será libertado dela (Romanos 8:19-23).

Atualismo, não

O que, porém, está na base do pensamento de Darwin não é sobretudo a “seleção natural” produzida pela “luta pela sobrevivência”. O fundamento do seu trabalho, na realidade, é o “atualismo” (ou “uniformismo”, tomado do geólogo escocês Lyell), isto é, tomar a realidade de hoje e aplicá-la explicitamente a todo o passado (estendendo-a assim implicitamente também ao futuro). Havíamos visto que, quando Darwin descreve o mundo de hoje, não o distorce muito, mas quando disse que o mundo sempre foi assim, nega a “descontinuidade” da criação; e quando deixa entender que será sempre assim, nega a volta de Cristo e a “descontinuidade” do advento de Seu Reino.

Darwin observa este mundo e, não sendo crente, não vê nele nenhuma obra sobrenatural (é por isso que esta postura pode também ser definida como “naturalismo”). Embora não explicitamente, de fato ele torna supérflua a presença de um Deus extremo e superior à criação. Nega, assim, a essência do relato bíblico, que mostra continuamente não só quando e como Deus já interveio no mundo, mas também quando e como pode intervir hoje, e quando e como intervirá no futuro.

O atualismo é um conceito basilar de Darwin, bem conhecido de quem se interessa por ele não superficialmente; porém sempre acaba sendo posto em segundo plano, no máximo sendo citado como pressuposto e depois esquecido. O darwinismo, assim, torna-se uma espécie de “cavalo de Tróia”, porque faz concentrar a atenção sobre um conceito substancialmente partilhado (a presença da “seleção natural”), sem que, freqüentemente, se dê conta ao mesmo tempo do verdadeiro objeto da controvérsia, representado pelo pressuposto do atualismo, cuja aceitação substitui o Deus bíblico por uma vaga “Entidade” que pôs o mundo em movimento para depois não mais se interessar por ele. Uma “Entidade” que qualquer pessoa pode também continuar a chamar de Deus, mas que é exatamente o oposto do Deus bíblico, o qual, para levar ao máximo a Sua atuação no mundo, finalmente, chegou a encarnar-se (em Cristo)!

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